Filosofia

No Princípio Era o Verbo...

Os Evangelhos são livros iniciáticos. Aquele que deseja ser cristão sincero encontra neles a doutrina conveniente à sua preparação. Porém, não deve ler esses livros como se fossem vulgares narrativas. É preciso que medite sobre o que lê na ânsia de encontrar a luz puríssima oculta nas palavras e símbolos contidos nos livros sagrados. E a sua penetração nos mistérios cristãos será tanto mais forte quanto maior for a pureza das intenções que tiver.

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O verbo, a palavra, não é um som? E o som, não é uma vibração? Tal como a palavra, o verbo é a espinha dorsal da oração, assim como a vibração é um poder criador, como hoje se sabe muito bem.

Cada um de nós tem um nome, pelo qual é conhecido e chamado. E este nome resume a nota-chave do eu, ou ego, pelo que, sendo pronunciado, soa dentro daquele que o recebeu como se fosse um mágico instrumento produtor de vibrações especiais. O mesmo não sucede se chamarmos a pessoa pelos seus apelidos. E, por esta razão, nas cerimónias fúnebres da Igreja Católica, chama-se o finado pelo nome que recebeu no baptismo e nunca por qualquer dos seus apelidos que recebeu da sua família.

É que o ego, ou espírito, não foi gerado no sangue de seus pais, mas já existia como partícula divina imortal. Ele é independente daqueles que o trouxeram ao mundo através do seu sangue e, por esse motivo, recebe um nome que também não é o da família, mas escolhido para ele. E como tudo quanto é deste mundo, da Terra, a ele pertence, a ela há de voltar, também os apelidos se perdem de vida em vida, mas o nome tende a manter-se.

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Ouvindo-o da boca de desconhecidos, que não nos amam, parece-nos uma profanação1. O nome está reservado aos mais íntimos, aos da nossa família e amizade. Todos os demais nos devem chamar por qualquer dos apelidos. Sabemos que o som dos apelidos não provoca dentro de nós a mesma vibração do nome. E que o nome que temos anda ligado ao nosso destino, faz parte de nós, tem íntima relação com o arquétipo dos nossos corpos. E o arquétipo, ao ser concluído pelos espíritos da natureza, recebe uma nota musical, um som, uma vibração especial que ficará soando, vibrando por um tempo determinado – aquele que durará a nossa vida. E cessando a vibração do arquétipo cessa a vida, o espírito deixa o corpo e vai iniciar uma outra fase da vida – que se chama ETERNA. A este fenómeno se chama MORTE, que não é mais do que simples mudança de estado, de natureza.

Deixando a vida terrena iniciamos a vida espiritual, na qual vamos fruir o que semeámos: o que fizemos neste mundo constituirá o nosso pecúlio e sustento na vida espiritual.

(Resumo do texto publicado)

Francisco Marques Rodrigues

 

1 No Noroeste de Portugal, durante o período que antecede a missa do sétimo dia, ninguém pronuncia o nome da pessoa que morreu e que é designada apenas por “o falecido”. Os parentes próximos cumprem esta prática durante pelo menos um ano após a morte (N. da R.).




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