Filosofia

Subiu ao Céu

(Conclusão)

Que sentido terá para o rosacruciano a narrativa da “ascensão”? Tal como se encontra descrita nos Actos dos Apóstolos, é um exemplo típico da linguagem do “lá em cima” associada à antiga cosmologia bíblica de que a Bíblia está cheia.

Primeiro que tudo, é preciso dizer que a “ascensão” não é um movimento no espaço. Vamos ver por quê.

A Ascenção

O sentido da “incarnação” deve ser encarado de modo dinâmico. Ao superar as coordenadas individualizantes de ordem biológica, psíquica, cultural, rácica, etc., a pessoa abre o “eu” interior. Este cresce em dinâmica relacional. Aquilo que assimilamos dessa actividade relacional ajuda-nos a crescer, em primeiro lugar, em interioridade pessoal-espiritual. Depois, leva-nos a participar na comunhão universal divinizada em Cristo. Podemos dizer, então, que é no coração da vida relacional, de serviço, que acontece a presença dialogante e iluminante de Cristo.

Com esta interacção com a interioridade do Logos Solar somos participantes, por identificação, das Suas perfeições.

Foi o que aconteceu com Jesus. Quanto mais crescia em interioridade pessoal-espiritual tanto mais directa e consciente era a interacção com a interioridade pessoal do Logos Solar. Este processo de identificação não foi instantâneo. Foi progressivo e decorreu até à crucificação. Quer dizer: à medida que se realizava a assunção da interioridade humana de Jesus na interioridade do Logos decorria a sua gradual potenciação e plenificação.

João é, porventura, o autor que melhor conseguiu explicar o dinamismo da cristificação humana. Ao referir-se aos rios de água viva, fonte de vida nova (zoé), que transcende a vida orgânica (bios), assinala como o espírito humano é o resultado do aperfeiçoamento de estruturas vivas e como a divinização do homem é proporcional à sua humanização (Jo 7, 38-39).

É no interior desta vida pessoal-espiritual (zoé), que se processa a ascensão e o encontro com Cristo. O homem não está distante do Universo. É uma presença interior, livre consciente, única e original do Universo. Por outro lado, a morada de Cristo não é um ponto qualquer no espaço. Transcende o espaço. Ele é a máxima interioridade e dinâmica do espaço. No Mundo do Espírito de Vida, que é o primeiro mundo universal e o seu mundo1, não há aqui nem acolá. Por isso, Cristo não veio cá, porque não estava lá. É equidistante de tudo e de todos. Na realidade, é “nEle que existimos e nos movemos e existimos” (Act 17, 28). Toca-nos na nossa interioridade, como disse S. Agostinho: “tarde vos amei. Porque vi que estáveis dentro de mim e eu fora, e procurava-vos fora”2. De facto, “Ele está dentro de nós” (Lc 17, 21)3.

Como já dissemos noutra ocasião, a incarnação é um processo que decorre na interioridade pessoal humana. A interacção directa, dialogante e imediata de Cristo, que acontece nessa dinâmica relacional, não é nenhuma colagem nem fusão de duas pessoas. É uma acção de potenciação e plenificação. O maior assume o menor sem o anular nem substituir.

A pessoa humana faz-se, ou realiza-se, agindo, optando, decidindo, criando, fazendo. À medida que o “eu” vai emergindo como interioridade pessoal-espiritual desenvolve a sua plenitude pessoal em dinâmica de reciprocidade comunitária e universal. E à medida que converge nesta esfera da comunhão universal é dinamizado, potenciado e assumido pelo espírito de Cristo. Em Jesus esta dinamização e potenciação chama-se ascensão para sublinhar a interacção directa entre o seu "eu” pessoal-espiritual e a interioridade pessoal do Logos Solar.

A “ascensão” resulta deste desenvolvimento relacional. Podemos então afirmar, com franqueza, que a “ascensão” não é um acontecimento único, irrepetível, situado no passado. É um processo que ocorre continuamente na interioridade pessoal-espiritual de cada pessoa humana. Neste limite interior do espírito o “dentro” e o “alto” são um e o mesmo lugar. Os dois são um só. É aí que ocorre o advento, mas também a “ascensão”, isto é, a potenciação e a plenificação da pessoa humana.

Também se diz que a “ascensão” é um acontecimento histórico ocorrido quarenta dia depois da Páscoa.

Mas isto é uma construção do apóstolo Lucas. Na verdade, apenas nos Actos encontramos esta ideia. Em S. João os três acontecimentos ocorrem, todos, no domingo de Páscoa. Fazem parte de um único acontecimento. O que autor dos Actos quis afirmar, com a sua maneira de dizer, o seguinte: o despertar da interacção e a incorporação da humanidade de Jesus na reciprocidade de Cristo é um processo demasiado longo para acontecer num só dia. E assim descreve os diferentes aspectos ao longo de uma linha de tempo, colocando um depois de 3 dias, outro ao cabo de um intervalo simbólico de 40 dias, associando ainda outro à festa de Pentecostes.

Sendo a “ascensão” o resultado da dinâmica individual de reciprocidade comunitária e da convergência na esfera da comunhão universal, em que se é dinamizado, potenciado e assumido pelo espírito de Cristo, ela é também um processo na marcha da humanidade. A evidência mostra-nos como ela ainda está fortemente condicionada pelas coordenadas limitativas da espácio-temporalidade e distante o ponto culminante.

Por isso conclui-se que a “ascensão” também não é um acontecimento histórico ocorrido no passado: é uma experiência contínua que se realiza até à cristificação de cada pessoa humana.

Conclusão

Um dos problemas mais angustiantes e actuais é o de saber distinguir nos textos bíblicos a mensagem que eles encerram da linguagem que utiliza, obscurecida por aquilo que Rudolfo Bultmann chama, e com razão, “maneira mitológica de pensar”. O fim dos elementos alegóricos e míticos na Bíblia permitiram apresentar conceitos objectivos de acordo com o entendimento da época. Mas é preciso lutar, agora, contra a insídia mitológica que obstrui o entendimento.

Para a mentalidade simbólica dos autores bíblicos, de algum modo influenciados pela divinização do Sol, da Lua e das estrelas, muito corrente nas religiões dos povos vizinhos, os astros são símbolos vivos das forças e personagens celestes. O Sol é o símbolo de Deus (Sl 84,12), instrumento vivificador e de salvação (Mal 3,20), do despertar do conhecimento, isto é, do esforço intelectual progressivo, reflexão e raciocínio e da intuição profética (Miq 3,6). É o simbolismo do fogo celeste que sustenta e justifica a data tradicional da festa do Natal, tanto do ponto de vista histórico como do teológico.

O Natal aparece depois de Jesus. No Império Romano, no dia seguinte ao Solestício de Inverno, começa a grande festa, a festa do Sol. No Solestício, o Sol encontra-se no ponto mais baixo do seu movimento “aparente”. Temos, no hemisfério Norte, o dia mais pequeno do ano. Na manhã seguinte, a nossa estrela inicia a sua marcha “aparente” para o Norte.

Os romanos dedicavam ao Sol um culto sagrado. Festejavam, na noite do dia 24 de Dezembro, o seu renascimento. Os cristãos do Império Romano, como nós, gostavam de festas. Na falta de indicação bíblica precisa sobre a data do nascimento de Jesus começaram, no século IV d.C., a celebrar o seu aniversário na noite de 24 de Dezembro.

Como o leitor vê, o Natal é claramente uma festa genuinamente solar. Tem uma data fixa e assinala o renascimento do Sol Invictus, o Sol Novo, Jesus, Salvador e Luz do Mundo.

Mas a Páscoa, que simboliza o “sacrifício” do Sol, é uma festa especificamente lunar. A sua data é definida com base no ciclo lunar e só pode cair no primeiro domingo a seguir à primeira lua cheia do Equinócio da Primavera.

A vida de Jesus foi descrita por meio de alegorias e símbolos celestes4. Esta solução permitiu traduzir em conteúdos concretos certas ideias abstractas, difíceis de compreender ou de exprimir naqueles tempos antigos. É um procedimento didáctico que nos obriga a encontrar o sentido dos elementos que a constituem, sem levar em conta os próprios elementos utilizados.

Não podemos aceitar os símbolos ignorando ou negando a objectividade da realidade que representam. Ao abordarmos um tema como este, nunca poderemos esquecer a questão da linguagem humana da Bíblia. Para falar de Deus, Cristo, etc., os autores humanos da Bíblia armaram-se de esquemas sociais, religiosos e culturais e de imagens da própria cultura e do momento histórico em que viveram.

A esta luz se entende a necessidade de colocar de lado uma leitura puramente literal, completamente estranha ao homem moderno, que pretende saber o que realmente significam os textos bíblicos.

É verdade que a imagem do relato vulgar da “ascensão” é a do movimento, de partida, de ir embora. Mas em todos os outros passos do Novo Testamento em que se menciona a Ascensão o que se acentua sempre não é o acto de “ir embora” mas a sua posição “acima”. Jesus passa a estar no cimo de tudo. Subiu “acima de todos os céus”.

Nos tempos antigos, Deus era concebido “por cima” de uma terra achatada. No universo geocêntrico de Ptolomeu, o centro é ocupado pela Terra, à roda da qual tudo gira, estrelas e planetas. Este universo é reproduzido na linguagem da teologia clássica que se mantém até aos nossos dias. Deus é o Ser Supremo mas, como o Sol, está “lá em cima” e do lado de “fora” visto na perspectiva da vida humana. A transcendência é representada como distância em relação ao homem e Deus é um Ser Separado, acima da Sua própria criação.

A visão ptolomaica do universo foi ultrapassada há mais de 500 anos quando Nicolau Copérnico demonstrou que o Sol era o verdadeiro centro do sistema solar.

A importância do papel do Sol na evolução da vida terrestre é desde há muito reconhecida. O sistema solar não é apenas o palco onde os planetas de movem. Na Criação, tudo está talhado para a dinâmica das relações onde nada de perde no vazio. “Cada um dos sete planetas recebe a luz do Sol em proporções diferentes, de acordo com sua proximidade, a constituição da sua atmosfera, e de acordo com os seres que em cada um deles evoluciona e, portanto, com a sua afinidade com um ou outro dos raios solares. Os planetas absorvem a cor, ou as cores, que lhes são harmónicas e reflectem as restantes sobre os outros planetas. Estes raios, assim reflectidos, levam consigo um impulso que caracteriza a natureza dos seres com os quais estiveram em contacto”5.

Entre o Sol e os diversos planetas há uma interacção constante e uma interdependência total.

A energia generatriz solar, vital-espiritual, é constantemente irradiada no espaço em simultâneo com outras radiações, designadamente a térmica.

Já nos antigos templos de mistérios, como diz Max Heindel, se ensinava aos discípulos que o Sol irradiava uma força espiritual e uma força física. As duas complementam-se.

É a lei do equilíbrio, que rege o movimento harmonioso dos astros, que lhes permite assimilar todas as energias da nossa fonte de vida planetária. Através dos seus movimentos, orbitais e outros, os planetas assimilam, em momentos precisos, a energia vital e a energia térmica.

A Terra, com o seu movimento à volta do Sol e a inclinação de 23º 05’ do seu eixo, permite que o hemisfério Norte, durante o Inverno, funcione como um acumulador eléctrico.

Durante a quadra pascal a energia vital contida no interior do planeta emerge para a superfície. Liberta-se, por assim dizer, da sua “prisão” terrena e associa-se à energia calorífica proveniente do Sol. O resultado é a exuberância de todas as espécies vivas na primeira estação do ano6. Na obra do Grande Arquitecto do Universo tudo está certo e perfeito.

Cristo não se confina “privadamente” no nosso planeta em tempo algum, numa esfera que só a Ele a nós interessasse. Ele é o redentor de todas as criaturas que evolucionam no Sistema Solar. Assim, nEle, a criação é introduzida numa unidade de existência com o Pai. Não viaja no espaço como o Pai Natal das histórias infantis. Está parcial e permanentemente confinado ao corpos planetários do nosso sistema solar e na medida em que possui com eles uma relação viva. Na carta aos Hebreus 6,6, S. Paulo refere-se a esta “crucificação” permanente. Usa o particípio perfeito do verbo “crucificar” e não o aoristo, um tempo verbal da língua grega que indicaria um facto passado.

A Bíblia recorre à linguagem da metáfora, da alegoria, do símbolo e do mito para desintelectualizar o ensinamento. Materializando a sua linguagem torna acessível a todos a Mensagem. Por isso, compreender a linguagem simbólica e mítica é essencial para entender a Bíblia em geral e o nosso tema em particular.

“Quarenta dias” é uma realidade fora do tempo. O dilúvio durou 40 dias e quarenta noites (Gn 7,4.12); Jesus, antes de começar o seu ministério, jejuou 40 dias (Mt 4,2; Mc 1,12; Lc 4,2), etc, etc.

À luz do que acabámos de expor, a narrativa da “subida” ao Céu é uma maneira expressiva de dizer que a transcendência humana é progressiva.

À medida que cresce em interioridade pessoal o homem (varão ou mulher), é capaz de se encontrar com Cristo, porque ele é a máxima interioridade do nosso Sistema Solar. O homem não está distante do Sistema Solar: ele é uma presença interior, livre, consciente, original, neste sistema planetário.

Ao abordarmos um tema como este, nunca poderemos esquecer a questão da linguagem humana da Bíblia: projecta em seres divinos as imagens que parecem as mais adequadas para os apresentar.

Estas imagens são necessariamente as do homem e, entre estas, as que mais claramente se relacionarem com experiências em determinado campo da actividade mais profundamente ficarão gravadas e mais incisiva e convincente será a linguagem que as exprimem.

É preciso, hoje, mais do que nunca, superar as leituras reducionistas do acontecimento de Jesus, que mutilam a compreensão dos ensinamentos bíblicos.

Francisco Coelho

Notas

1 Max Heindel, Conceito Rosacruz do Cosmo, 4ª ed., Lxª, 2005; p 297.
2 S. Agostinho, Confissões, 10,27.
3 O texto é ambíguo. Tanto se pode ler “dentro de vós”, como “no meio de vós” ou “entre vós”. Em qualquer dos casos, o pronome é plural.
4 Max Heindel, Rosicrucian Christianity – Astronomical Allegories of the Bible; Oceanside, s/d.
5 Id., Mistérios Rosacruzes, Cap. V, FRP, Lxª 2004, pp 140-141. Cf. Temas Rosacruces. Vol. I; Kier, 1985, pp 45-78.
6 A variação da temperatura deve-se ao ângulo de incidência dos raios solares e não à proximidade do Sol. No Verão, nos primeiros dias de Julho, a posição da Terra é a mais distante possível do Sol. Durante o mês de Janeiro encontra-se à distância mínima da nossa estrela. A incidência dos raios solares mais próxima da vertical, como que acontece no Verão (e nas regiões equatoriais), eleva a temperatura, mesmo que a Terra se encontre mais distante do Sol.




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