Filosofia

Sincretismo

Assistimos hoje a dois fenómenos dentro das religiões, filosofias de pensamento e movimentos afins que nos merecem reflexão à luz do plano divino, tal como a filosofia rosacruz o entende e divulga.

Em primeiro lugar, trata-se da mistura de conceitos típicos de determinas religiões ou movimentos ou a intrusão já desvirtuada dos mesmos. Esta atitude é muito fomentada pelos movimentos modernos, que vêem na partilha de conceitos e na inclusão de outros em suas filosofias uma espécie de Novo Humanismo em que retiramos de cada lado o que nos parece melhor e reconstruímos a nossa própria filosofia. Considera-se uma atitude “aberta”, por oposição a alguns movimentos que, não participando desta atitude, são acusados de “clausura de espírito”.

Ora este facto merece-nos três reparos: nem o Humanismo é o amalgamento e a distorção de conceitos nem tal procedimento é saudável do ponto de vista espiritual nem produz efeitos duradouros. Não estamos a dizer que não se deva estudar outras religiões, filosofias de pensamento e afins e não se reflicta sobre elas, mas é preciso cautela e observar a intenção com que o fazemos.

Em segundo lugar, tal como o nosso irmão Max Heindel ensinou, sempre que cada religião ou movimento se manifesta no plano físico, já foi previamente delineado e planificado no plano suprafísico. Foi criado com determinados objectivos, durante um período de tempo e vibra numa frequência específica, por forma a atrair indivíduos que estejam em harmonia com ela, pois tal movimento foi constituído para ajudar a evoluir em determinado grupo de seres.

Quando misturamos conceitos de várias religiões e filosofias estamos a criar desarmonia em nós e ao nosso redor, pois estamos a misturar e a distorcer diferentes vibrações. Sendo o nosso corpo uma esponja que emite e absorve energia, essa desarmonia criada reflectir-se-á em nós e no que nos rodeia, incidindo os seus danos nos corpos vital e mental. Este procedimento assemelha-se a um músico que toca oboé e é incorporado numa orquestra de violinos onde vai tocar uma pauta desconhecida.

O efeito desta atitude, embora temporário, dá-se graças ao envolvimento do corpo emocional, mas produz efeitos negativos nos planos físico e suprafísico. Como não vemos o efeito imediato e a médio prazo desta distorção nos corpos acima mencionados e, consequentemente, não associamos os efeitos físicos ao nosso procedimento, faz com que nem pensemos no assunto e, mesmo quando somos alertados, consideremos tal advertência uma tacanhez de espírito.

Além disso, evoluir concentrando todos os nossos esforços num determinado movimento, religião ou filosofia de pensamento, potencia a aceleração do próprio processo evolutivo e torna-o menos penoso. Também aqui Max Heindel nos deixa um exemplo bastante elucidativo. Diz que a evolução de um indivíduo que andarilha de escola em escola ou deambula de conceito em conceito assemelha-se à subida lenta da montanha em espiral. Ao passo que o ser que encontra afinidade com um determinado movimento ou religião e concentra nessa proposta de percurso espiritual todos os seus esforços sobe a montanha em linha recta e mais rapidamente.

O sincretismo pode ser entendido de vários modos: como a busca existencial de um sentido para a vida, a procura de uma família espiritual com a qual o indivíduo sinta harmonia, a desorientação de determinadas escolas ou grupos, o esvaziamento espiritual a que chegaram alguns movimentos, entre outros.

Coincide este fenómeno moderno com uma dos aspectos do Criador – Nascimento, Amadurecimento e Morte – neste caso, o sincretismo como a mistura de conceitos e a distorção dos mesmos, corresponde ao terceiro aspecto, a Dissolução.

O sincretismo, como elemento desarmónico e, portanto, contra o fluir da Vida, pode ser entendido também como o início, ainda que ténue, da dissolução das religiões e alguns movimentos filosóficos, tal como está estabelecido no plano cósmico: a dissolução dará origem a uma religião universal cristã, até que o nosso mestre, Cristo, possa entregar ao Pai, a Terra redimida e liberta de todo o sofrimento e possamos viver, posteriormente, a Religião Universal, vibrando todos em uníssono.

Se olharmos para a História, notamos estes três princípios do Criador activos e o sincretismo como elemento desagregador, obrigando o indivíduo a inventar e reinventar formas para sobreviver e a espécie não perecer. Verificamos que o Mal trabalha em favor do Bem Supremo, ainda que a sua intenção seja contrária à resolução do plano cósmico, no qual Cristo se ofereceu para participar.

O que resta, então, aos seguidores da filosofia rosacruz? Resta-nos mantermo-nos fiéis a Cristo e aos ideais por Ele fomentados, ajudando o Mestre no seu trabalho e lembrando-nos que a Fraternidade Rosacruz é a escola preparatória da futura Fraternidade Universal. É responsabilidade de todos vivermos diariamente o ideal da forma mais pura que nos for possível e transmiti-lo aos vindouros sem contaminação. Só deste modo, a Ordem Rosacruz poderá cumprir os objectivos para que foi criada.

Maria Coriel




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