Filosofia

O Santo Graal

A erudição dos historiadores, dos filólogos e dos críticos deu-nos uma vasta literatura sobre o Santo Graal e as numerosas versões desta sublime tradição iniciática. Notemos somente aqueles que constituem autoridade sobre o assunto: Paulin Paris, Fauriel, Moland, Gaston Paris, Vercontre, Pauphilet e talvez Aroux e Michelet, em francês; Nutt, Rhys, Harper, Weston e Waite, em inglês; Birsch-Hirschfield, Heinzel, Wesschler, Staerck, Baist e Golther, em alemão. Não é de mais dizer que cada um destes grandes intérpretes nos deu uma exegese diferente do elemento esotérico do Santo Graal.

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A mais profunda de todas as interpretações, aquela que cintila como um ponto de Luz Divina em todas as versões antigas, é a que nos mostra o Rito do Santo Graal como um Super-Sacramento, com palavras de Consagração duma Potência Divina. Celebra-se apenas no plano espiritual. Tem uma hierarquia iniciática “segundo a Ordem de Melquisedeque”, a única que pode celebrar o rito, invisível para a visão normal terrestre. É apoiada por uma cavalaria laica, mas também de iniciados – os Cavaleiros do Santo Graal. Actua sobre a alma e o espírito humano. O fim deste rito é a comunhão entre o espiritual e o divino, da mesma forma que a Missa ou a Santa Comunhão actua no plano terrestre, base da comunhão entre o material e o espiritual.

O Santo Graal é um Alto Mistério e nenhuma das versões antigas nos dá uma exegese do seu carácter, duma maneira tão categórica como a que acabamos de dar no parágrafo precedente. A nossa exegese é inevitavelmente precisa e afirmativa para ser inteiramente justa para um mistério tão sublime.

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Esta Comunhão é Cósmica e Cristã ao mesmo tempo.

Esta leve descrição será perfeitamente clara para todas as pessoas ao corrente da técnica de acesso aos planos espirituais. Mas não é de supor que todos os nossos leitores adquiriram o conhecimento desta via de desenvolvimento. Se bem que, por um lado, seja prudente não desvendar forças que seriam perigosas em mãos inexperientes, nunca se deve, por outro, obscurecer a verdade. Tentemos, portanto, esclarecer por meio de alguns exemplos o Mistério do Santo Graal nos planos superiores.

Tomemos o primeiro exemplo. O trabalho habitual, cumprido diariamente para o sustento pessoal, é parte integral da vida normal. É louvável, mesmo que o seu fim único seja ganhar o dinheiro necessário para viver. Esse trabalho é, porém, enobrecido se a finalidade for a de alimentar a família. O trabalho feito com brio, com intenção de alcançar a perfeição, coloca-se já num plano superior. O trabalho realizado para benefício directo duma outra pessoa é ainda mais enriquecedor. Mas, se o trabalho for realizado, à custa do sacrifício pessoal, não tendo outro fim se não o benefício de futuras gerações, que nada conhecerão – nem mesmo o nome – do trabalhador, então, esse trabalho alcança o máximo da sua nobreza e de participação na obra de Deus. Do mesmo modo, o amor pode exprimir-se por meio da vida conjugal ou de forma romanesca, patriótica ou mística.

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Tendo assim discernido o carácter espiritual do Rito e da obra do Santo Graal, podemos, agora, tentar compreender o significado dos elementos que o compõem e, sobretudo, o Mistério do Cálice. A interpretação que se segue não se baseia apenas numa das versões antigas: é uma síntese das indicações esotéricas dos grandes textos de outrora. Utilizámos os textos do “Conto do Graal”, “O Grande Santo-Graal”, “O Pequeno Santo Graal”, “Lancelote”, “Morte Darthur”, “Huth Merlin”, “Parsifal” e “Titurel”. Para não tornar pesado este artigo deixamos de lado toda a consideração crítica destas diferentes versões.

Se bem que a visão do Santo Graal – percebida por Parsifal, Gavain, Lancelote ou Galaaz – seja sempre descrita reverentemente e com a falta de definição que compete a um Mistério Iniciático, podemos discernir quatro grandes linhas de simbolismo:

1.º - Que o Cálice do Santo Graal era a Taça de Esmeralda na que Nosso Senhor consagra o vinho na Santa Ceia;

2.º – Que era um vaso sagrado no qual José de Arimateia conservou as gotas de sangue que correram das feridas do Cristo quando da descida da Cruz;

3.º – Que era a Taça da Abundância, tanto material como espiritual;

4.º – Que simboliza a Virgem-Mãe e o Nascimento Eterno, emblema da transmutação eterna, da vida à morte e da morte à vida.

É perfeitamente evidente que Chrétien de Troyes e Robert de Boron, se bem que tivessem penetrado mais profundamente nas belezas espirituais do Santo Graal do que qualquer outro trovador ou narrador da Idade Média, não eram Iniciados. Eles não eram mesmo neófitos e é muito duvidoso que tivessem mais que uma vaga concepção da significação esotérica das suas canções e das suas odes. Mas eram poetas, enamorados da beleza, discípulos da cavalaria, cantores de vidas heróicas e a inspiração do mistério sublime do seu assunto, meio adivinhado, preenchia toda a sua alma.

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Seguindo os seus passos, levantámos uma ponta do véu que oculta o Cálice do Santo Graal. Isso bastará para aqueles que devem ver.

(Resumo do texto publicado)

Francisco R.-Wheeler




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