Filosofia

A Ressurreição

A religião dada por Cristo ao mundo tem a sua base em princípios rigorosamente científico-espirituais. A esses princípios, durante muitos milhares de anos antes de Cristo, e até depois d’Ele, se chamaram “mistérios”. Os mistérios não eram mais que segredos, chaves para abrir o entendimento dos seres humanos mais aptos para as grandes verdades, para a Luz. Estas chaves continuam a ser necessárias para adquirir o conhecimento que é preciso ter para alcançar a cristificação, atingir a verdade e a perfeição no mundo físico. É o conhecimento que nos torna cristos, deuses, senhores no mundo espiritual, meta para a qual todos nos encaminhamos como filhos de Deus.

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As festas móveis da Igreja Católica obedecem totalmente aos movimentos do Sol, da Lua e da Terra. São, por isso mesmo, comemorativas de factos cósmicos determinados pela astrologia, uma ciência sagrada pelo seu carácter espiritual. Por esta razão o seu mau uso está condenado no Velho Testamento.

Chamam-se festas móveis aquelas que têm a sua celebração em datas diferentes, de ano para ano, e a sua realização depende da Páscoa. Ora, a Páscoa fala-nos de uma passagem, de um mistério.

Quando Moisés a instituiu, o Sol deixava, isto é, passava do signo zodiacal do Touro para o do Carneiro. Ao mesmo tempo, o povo hebreu passava do estado de sujeição do cativeiro no Egipto, ao de libertação; e no mesmo pé trocava – ou passava – da religião do Touro egípcio para a do Carneiro hebreu. Passava de um culto a outro; de uma lei antiga a outra que se estabelecia e que era de tão grande perfeição que ainda em nossos dias não foi totalmente revogada.

Esta série de festas móveis da igreja Católica Apostólica Romana, da Igreja Católica Liberal, da Igreja Ortodoxa, dos Gnósticos, da Maçonaria e de outras religiões, são comandadas pelos movimentos do Sol e da Lua. É por isso que os símbolos e os metais afins com estes corpos celestes andam sempre associados ao culto nas organizações mencionadas. Usam-nos em objectos e até nos paramentos, onde vemos fios de ouro e fios de prata, os primeiros associados à simbólica do Sol e os segundos à da Lua.

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Primitivamente os meses correspondiam às lunações. Tinham uma duração lunar. E como a Lua faz as suas quatro fases em cerca de vinte e oito dias, tendo cada uma delas cerca de sete dias, a semana foi fixada, até hoje, em sete dias. A cada um dos dias dedica-se um planeta, como ainda se vê pelos nomes que os dias da semana conservam em alguns países.

O ano astrológico foi dividido em doze meses, por a Terra dar uma volta completa em torno do Sol e percorrer todo o Zodíaco, composto de doze constelações. Os antigos atribuíram-lhes influências que, por analogia, os relacionaram com certos símbolos de natureza humana, animal, e até com um instrumento de precisão que é a balança.

Por todos estes motivos a Páscoa, em hebraico Pessah, tem lugar no momento em que o Sol e a Lua estão opostos, o que se chama “Lua Cheia”, depois de o Sol haver entrado no signo do Carneiro, Os Hebreus celebram com rigor, neste dia, a sua festa nacional. Mas a Igreja Católica, para não festejar a Páscoa com os Hebreus, fixou-a no domingo imediato. E se a Lua Cheia for num domingo, os católicos celebram a Páscoa no domingo seguinte.

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O frio que nos atormenta e faz concentrar o sangue no interior dos nossos corpos e a seiva nos troncos dos vegetais vai diminuir. E, por isso mesmo, a vida expande-se por toda a parte. Dá início ao despertar, ao renascer de novas vidas, animais e vegetais. O frio, que mantém o espírito no interior do corpo para o compelir a moderar os seus impulsos de ordem terrena, lembra-nos Saturno, o Mestre da Rectidão, que nos prepara espiritualmente. Por isso, a época do Natal, aquela em que o frio predomina, é a mais espiritual do ano.

De Dezembro a Março estamos no solstício do Inverno, estamos assim limitados pelas condições climáticas para benefício espiritual dos povos que vivem no hemisfério norte.

Os Hebreus contavam os seus anos a partir da Lua Nova anterior à entrada do Sol na Balança, que é o início do Outono. E tinham razão! É que a partir da entrada do Sol neste signo começa o equinócio do Outono. O Sol, assento de um grande ser a quem reverenciamos sob a nome de Cristo Cósmico, aumenta gradualmente a sua influência na Terra, com o propósito de a fecundar, de a encher da sua vitalidade radiosa. Por isso, os dias começam a ser cada vez mais curtos e as noites mais compridas. Isto permite-nos ter sonos mais longos e, deste modo, permanecer mais tempo nos domínios eternos do Espírito. Mas, ao entrar o Sol no Capricórnio, o Cristo Cósmico começa a “elevar-se” no espaço. E a causa de os dias começarem a crescer e as noites a minguar. A vida que Ele estimula renasce à face da Terra, no hemisfério norte. Por tal facto se diz que é Natal quando o Sol entra no Capricórnio. Em consequência disto, os antigos egípcios celebravam, neste mesmo dia, à meia-noite, a sua festa mais solene. Era dedicada a Hórus, que renascia para glória de todos.

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A Igreja Católica, Apostólica Romana, fixou o dia 25 de Dezembro como sendo o do renascimento de Jesus, lançando assim a milenar tradição egípcia no esquecimento. Porém, o disco solar dos Egípcios, que ainda se vê nos seus desenhos entre as hastes de Ápis, o touro, em memória da entrada do Sol no signo zodiacal do mesmo nome, mantém-se igualmente na Igreja: é a patena com que se cobre o cálix, é a hóstia, é a custódia e até a própria tonsura que os clérigos ostentavam na parte mais alta das suas cabeças!

Ao entrar o Sol no signo do Carneiro, em 21 de Março, os dias e as noites são iguais na sua duração, pois começa e o Equinócio da Primavera. A Natureza anima-se ao máximo. Cobre-se de flores e dá abundantes frutos. Por esta altura, e logo ao começo da estação, o Cristo Cósmico começa a diminuir a sua influência na Terra.

Jesus foi morto na véspera da Páscoa, durante as cerimónias preparativas da festa nacional dos Hebreus. Por esta razão se comemora, ao mesmo tempo, um facto cósmico que é a “libertação” ou “ressurreição” anual do Cristo Cósmico e a morte e ressurreição de Jesus. Ele é o primeiro homem que atingiu o mais alto estado de perfeição e, por esse motivo, se cristificou, ficando a ser um Cristo também.

Neste equinócio o mundo atinge, no seu hemisfério norte, o máximo da sua alegria. Mas é também o tempo em que o espírito se entrega mais vivamente ao que é terreno. De facto, nesta estação e na seguinte, o ego volta-se para as coisas terrenas com mais entusiasmo, descurando muito mais as do espírito.

Em Junho, no solstício de Verão, a Terra entra noutra estação. O Sol está agora no ponto mais alto do céu. Os seus raios descem sobre nós mais perpendicularmente e, por isso, o calor é mais forte. Estamos então muito mais aptos para a vida material. Os frutos vão amadurecer mais depressa e receber maior soma de poder nutritivo. É precisamente quando o Sol está no signo do Caranguejo que os dias vão começar a ser mais curtos, as noites mais longas! É a altura de recolher os frutos e de os armazenar para prover o nosso sustento dali por diante.

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A morte parece estender o seu triste manto sobre o hemisfério norte, para nos preparar melhor para o Mundo Celeste ou espiritual.

Afinal, a morte e a vida andam associadas para nos ajudarem a evoluir, a atingir a perfeição máxima ou cristificação.

O Cristo Cósmico tem a seu cargo a nossa evolução, o nosso aperfeiçoamento, Por isso anualmente Ele “desce”, quer dizer, aumenta a sua influência na Terra, como resultado dos movimentos do nosso planeta. Dá-nos a Sua própria vida, que vem nos produtos que comemos e até no próprio ar que respiramos. Este acréscimo de vitalidade inicia-se no solstício do Verão diminui depois do solstício do Verão e diminui a partir do solstício do Inverno até ao equinócio da Primavera, o da Ressurreição.

(Resumo do texto publicado)

Francisco Marques Rodrigues




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