Filosofia

É Preciso Dar para Receber

Um asceta andava pelos caminhos solitários da meditação à procura do conhecimento divino, na ânsia de ir ao encontro com o Absoluto – Deus. E quase não se alimentava, pois comia apenas uns grãos de trigo que ia recebendo caridosamente pelo caminho de pessoas compreensivas e compadecidas que ia encontrando. Um dia, já desanimado por ainda não ter encontrado o seu Mestre, sentou-se à beira do caminho, esfomeado no seu corpo e na sua alma, esgotado de energias. E adormeceu. Durante o sono ele viu o seu Mestre num carro de ouro, semelhante aos que usaram os guerreiros gregos e romanos. E sentiu-se feliz. Chegava, enfim, o seu Mestre. E logo deliberou pedir-lhe o que tanto necessitava: a energia que perdera e a paz do seu coração.

O Mestre irradiava de si o amor, a plenitude e a bondade. Mas, antes de o asceta se refazer da emoção, o Mestre disse-lhe: “Meu filho, estou com fome! O que tens para me oferecer?”

Admirado e desiludido, o asceta abriu o saco, murmurando no silêncio da sua alma: “Ai de mim! Que amarga decepção! É este o Mestre que tão ansiosamente esperava e, em vez de me confortar, ainda me leva o pouco alimento que tenho!” E, parcimoniosamente, tirou cinco dos grãos de trigo dos poucos que lhe restavam e deu-os ao Mestre, que lhos agradeceu com tal sorriso que o asceta ficou logo refeito do seu esgotamento e confortado. Um homem novo estava agora dentro de si. Quis falar, exprimir ao Mestre a sua gratidão, mas não o viu mais. O Mestre desaparecera.

Na paragem seguinte o asceta abriu maquinalmente o seu alforge. E dentro dele encontrou cinco brilhantes grãos de puro ouro, resplandecentes, entre que ainda lhe restavam. Eram os que tinha dado ao Mestre. Cinco grãos restituídos com todo o tesouro da bênção divina. Cinco grãos de ouro fino e a mais pura alegria interior.

R. T.




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