Filosofia

O Poder do Pensamento

No princípio era o Verbo. É esta a letra expressa;
Aqui está... No sentido é que a razão tropeça.
Como hei-de progredir? Há aí quem tal me aclare?
O Verbo! Mas o Verbo é coisa inacessível.
Se apurar a razão, talvez se me depare
Para o lugar de Verbo um termo inteligível...


Ponho isto: No princípio era o Senso... Cautela
Nessa primeira linha; às vezes se atropela
A verdade e a razão co’a rapidez da pena;
Pois o Senso faz tudo, e tudo cria e ordena?


É melhor: No princípio era a Potência... Nada!
Contra isto que pus interna voz me branda.
(Sempre a almejar por luz, e sempre escuridão!)
...Agora é que atinei: No princípio era a Acção.1

Sem o pensamento não existe acção. Portanto, o pensamento nem só dá início à acção, mas orienta-a. Ele tem sobre nós e sobre tudo quanto fazemos um poder tão grande como o verbo o tem na formação da frase. E o verbo é uma palavra, um som, uma vibração, um pensamento.

“No princípio era o verbo”... E ele foi a origem de tudo quanto existe.

O pensamento fica sempre registado, mesmo quando não originou acção alguma. Por isso deixará sempre a sua marca, boa ou má, como ele foi na sua génese.

O pensamento é vibração; esta põe em actividade a matéria subtilíssima do Mundo do Desejo, e assim o pensamento materializa-se em palavras e em acções.

Francisco Marques Rodrigues

 

1 Goethe, Fausto, Quadro IV, Cena I, Trad. de A. Feliciano de Castilho.




[ Índice ]