Filosofia

O Peregrino das Idades

O homem é, necessariamente, um eterno peregrino das idades, vagando através das malhas da ilusão; não age, entretanto, como o Judeu Errante, como um prisioneiro, galgando as espirais das idades sem fim, mas como, um espectador, um apreciador da maravilhosa construção de um Grande Arquitecto, que observa os acontecimentos nos quais toma parte, os quais não pertencem ao seu Ego e estão além dele. O homem sábio aproveita as lições da vida ilusória e fica livre das suas limitações e ansiedades.

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Não foi um sábio e esclarecido místico que disse: “Porque não temos aqui cidade permanente, mas vamos buscando a futura” (Heb 13,14)? E ainda: “...casa não feita por mãos, eterna, nos céus” (2Cor 5,1). Pode parecer-nos um objectivo distante, uma caminhada infinda, porém, algum dia, alcançaremos o lugar onde faremos e usaremos “túnicas de peles” (Gén 3,21) à vontade e então ficaremos como nossos Irmãos Maiores, os “Filhos da Mente de Brama”, “sem pai, nem mãe, sem genealogia, não tendo princípio de dias, nem fim de vida” (Heb 7,3). Para atingir esse objectivo, é necessário que o homem esteja apto a manejar o ceptro poderoso que cria e destrói, voluntariamente, tudo que o espírito quiser. Esse poder somente pode ser alcançado por intermédio das experiências que o tempo oferece e pela convicção de que o homem não é sujeito á variação dos dias, mas que permanece fora disso, embora ligado a corpos que sofrem variações.

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Nessas ocasiões é que compreendemos o significado da frase: “um dia para o Senhor é como mil anos, e mil anos como um dia” (2Pe 3,8). Inspirado por essa expressão profética, um dos maiores poetas do mundo compôs um poema no qual um monge, não compreendendo o significado do tempo para o próprio Deus que adorava, saiu a passeio pelos arredores. E, ouvindo o canto suavíssimo de um pássaro, durante dez minutos (como ele havia pensado), resolveu voltar ao mosteiro. Verificou então que os dez minutos tinham sido mil anos para o mundo que ele ignorou totalmente durante o seu êxtase.

A razão pela qual o tempo parece a única realidade ao peregrino é que, durante suas experiências, tem necessidade de mudar constantemente as “túnicas de pele”, pois é por meio delas que adquire o saber e é por meio delas que o tempo estende sua sombra como realidade.

Pois, para elas, descanso, alimento e abrigo, são necessidades e uma das maiores imposições do tempo é a ideia de que o peregrino começa a vida como uma criatura nova, ágil e cheia de frescura; porém, à proporção que o tempo passa, começa a crescer, seus músculos se enrijecem, o rosado das faces desaparece, o passo torna-se inseguro, a vista embaçada, o paladar desaparece e, finalmente, a ilusão completa-se e o homem transforma-se num velho prisioneiro entre os muros do tempo, cercado pelas suas próprias deficiências e curvando-se aos golpes dos seus dias que se encurtam.

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Até mesmo o próprio indivíduo que se adapta às ilusões do tempo, crendo que envelhece com o decorrer dos anos, mentalmente se revolta contra o entorpecimento das faculdades e dos membros corporais que não mais lhe obedecem. O espírito incansável que habita em seu íntimo conhece o seu parentesco com as estrelas e aguarda o alento divino para fortalecer seu coração e renovar suas energias. A sua verdadeira morada é em qualquer parte. O espírito é um habitante da esfera maior, de horizontes infinitos, e nunca fica satisfeito com o limite do tempo.

A sua peregrinação começa através dos infindos caminhos do tempo, como uma centelha viva da divindade, que deve crescer mercê de uma sabedoria acumulada pelas suas circunvoluções em torno da Chama Infinita, de onde emanam outras centelhas, seguindo o mesmo destino. A princípio, e durante muitas incarnações, essa centelha habitando numa túnica de pele, ignora que existe outra vida que lhe pertence, outra morada além das estrelas, temporariamente abandonada.

Porém, gradualmente, à proporção que os frutos de suas experiências se acumulam no íntimo, despontam alguns lampejos. Surgem cenas diante da vista interna, as quais o peregrino tem a sensação de ter conhecido anteriormente.

Vê muitas paisagens de lugares distantes e exclama: “já estive ali!” Velhos amigos são encontrados e calorosamente cumprimentados, pois tem diante de si a visão clara de um conhecimento anterior; velhos inimigos são também encontrados e as dividas são pagas; ocorre, então, uma grande expansão da consciência.

Quando isso acontece, a vida, não só no corpo, como fora dele, torna-se uma maravilhosa aventura que se realiza, não no tempo, mas nos infinitos campos da eternidade. Colhemos no nosso corpo aquilo que plantámos e guardámos no celeiro dos nossos conhecimentos. O peregrino atinge o grande plano de evolução, lenta, porém, seguramente e por si próprio; o drama é assistido através dos véus do tempo, mas nem por isso é menos real e impressionante. Uma nova criatura sai das sombras da adversidade, reconhece as oportunidades perdidas, quando habitava outros corpos, em tempos idos, e desprezou a tarefa que lhe cumpria desempenhar e que foi realizada por outrem. Pela agonia da perda, aprende três coisas: não pode reter o que lhe não pertence; o que é tirado de outrem deve ser pago, ainda que seja em gotas de sangue; e, finalmente, nada que verdadeiramente lhe pertence, pode ser tirado.

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Seguro pelo conhecimento das idades, ele passa entre as colunas do tempo, absorvendo novas experiências e transmutando-as no ouro da sabedoria, a qual persistirá além do tempo. Sorri diante da sua própria dor e não recusa conforto aos seus irmãos de sofrimento. Aceita a adversidade porque ela lhe traz a força de resistência. Aprende a sentir todas as agonias, todos os cruéis desesperos que abalam a vida do espírito; todas as esperanças que fenecem deixando a dor no seu lugar; todas as separações que parecem eternas; todas as provações que não parecem ter fim. Aprende a trilhar o caminho com o coração magoado pelas dores do mundo, derramando lágrimas secretas; porém, caminha com a certeza de que tudo passa, porque tem os olhos abertos.

Colhe todos os benefícios, embora saiba que um dia será crucificado e que outros virão para tomar parte no grande drama da evolução. Sabe que nesse dia estará em união com tudo o que vive. E este conhecimento torna suave o espinhoso trajecto do Caminho.

Finalmente, chegará o tempo em que o peregrino, purificado, apenas verá luz à sua frente, felicidade no seu caminho. Bastará estender a mão para obter aquilo que almejou através das angústias de amargas existências. Então, é-lhe oferecida a escolha. Ele pode gozar a paz da perfeição, a glória de sua união com o Espírito, o puro amor que o aguarda, ou pode voltar para junto dos seus irmãos de sofrimento, escolhendo o caminho da renuncia, a fim de os auxiliar na sua evolução.

E quando ele escolha renúncia, entregando-se ao mundo que conquistou, o peregrino transmuta-se na mais sagrada essência que a terra pode produzir: torna-se a flor mais esplendorosa e o portador do mais elevado título: “Salvador dos Homens”.

(Resumo do texto publicado)

P. E. B.




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