Filosofia

O Pecado Original

Na intenção de manter os seus fiéis unidos à sua volta, os condutores das religiões dominantes no Ocidente agitam diante deles, insistentemente, um hediondo espantalho a que puseram os nomes: Diabo, Pecado, Demónio, etc. Mas a verdade é que o resultado foi contraproducente! Em vez de se fazer de cada crente uma pessoa corajosa, forte, consciente, bondosa, feliz, criaram-se psicópatas, contribuiu-se poderosamente para o amesquinhamento do ser humano! E isto é profundamente lamentável, pois nem as religiões ganharam, nem os seus fiéis, mas pelo contrário, todos perderam!

Buda, que há mais de 2500 anos apareceu no Oriente com a sua Mensagem renovadora, que lhe granjeou a glória de ser considerado a Luz da Ásia, era de opinião que, para eliminar o mal, só havia um remédio eficaz: ACRESCENTAR A SABEDORIA!

E CRISTO, a LUZ DO MUNDO, fundou uma Escola de Sabedoria Sagrada, com o fim de libertar as inteligências humanas dos obstáculos em que as mantinham as religiões.

Nem Buda, nem Cristo, fundaram religiões. Mas em seus nomes elas apareceram e até agora sempre se esforçaram por fazer o contrário do que eles pregaram: prender bem curtos os seus fiéis aos dogmas e não os deixar sair do espaço acanhado em que os fixaram. A “tábua de salvação” que lhes fornecem é o medo! Mas o medo não edifica, antes destrói! É uma espécie de algema que paralisa todo o movimento libertador!

Muitos religiosos enlouquecem devido ao temor, ao medo que o tal espantalho causa e ao fanatismo. Outros não chegam a enlouquecer mas vivem acorrentados a ideias sombrias, erradas. São infelizes, vivem muitas vezes angustiados! Os próprios templos aparecem povoados dessas sombras malditas que ao longo de milhares de anos foram agitadas pelos clérigos diante dos seus fiéis! De tudo isto resulta um profundo mal-estar a que é necessário acudir. E o socorro só pode encontrar-se no conselho de Buda: “O caminho médio da razão é o mais seguro”; “o mais forte meio de conjurar o mal é ACRESCENTAR A SABEDORIA”.

(...)

Começam a rarear as pessoas que aceitam como boas as ideias espalhadas pelas religiões, a respeito do Diabo, porque as suas inteligências não podem aceitar um Deus omnipotente, que tudo pode, e a de um adversário que é capaz de lhe minar todo o seu Poder e prestígio. E de facto, se Deus é omnipotente, como nós o cremos, como permite a existência do Diabo e não destrói o seu poder?

As ideias espalhadas a respeito de Deus e do Diabo estão erradas e carecem de rectificação. O Diabo, tal como o pintam, não existe!

Deus criou todos os seres e tudo quanto existe, e por isso é chamado Supremo Arquitecto do Universo. ELE fez-nos à Sua imagem e semelhança e deu-nos meios para que bem orientássemos a nossa conduta, deixando-nos por isso a inteira responsabilidade das nossas acções.

Filhos de Deus, nós somos deuses também. E como viemos à Terra para realizar experiências com o fim de alargar o campo da nossa consciência, para gradualmente aumentarmos o nosso poder divino, sucedeu que nos fomos afastando da pureza primitiva para cair nos traiçoeiros laços do vício. E assim complicámos profundamente a nossa missão e criarmos os empecilhos que temos.

(...)

Toda a matéria utilizada na elaboração dos nossos corpos é invisível enquanto está no seu estado elemental. Mas, nos elementos há inteligências, ainda que infinitamente inferiores à nossa, que são os obreiros dessa matéria. Os ocultistas chamam-lhes Espíritos da Natureza, Elementais, Espíritos dos Elementos. E como os elementos classicamente conhecidos são quatro, depreende-se que são quatro, também, as ordens ou índoles de tais seres sub-humanos. Eles são senhores absolutos no domínio elemental; mas todo o seu trabalho é para os seres que vivem na Terra, e para nos ajudar a evoluir. Estes espíritos são bons ou maus, de harmonia com a ordem a que pertencem. As tempestades, as chuvas, os frios, as neves, as secas, enfim, o bom e o mau tempo são obra sua. Nós reconhecemo-los quando, ao referir-nos a esses fenómenos, os atribuímos às “Forças da Natureza”. Admitimos, por isto mesmo, um poder invisível que opera tais fenómenos e arrumamo-lo no catálogo dos nossos conhecimentos sob o título: FENÓMENOS DA NATUREZA. E até as religiões de contextura esotérica sabem da existência destes seres e buscam a sua cooperação para os seus trabalhos litúrgicos.

 

Como se Fazem Diabos e Anjos

Os nossos desejos e emoções provocam vibração nas matérias elementais, pondo em actividade as substâncias que pertencem à mesma nota vibratória. Um dos espíritos elementais que pertence a essa gama de onda vibratória apodera-se de toda a matéria posta em acção e com ela se reveste, pedindo sempre mais, daí por diante.

Ora, se este espírito pertence a uma ordem de seres maus tudo depende do grau vibratório da emoção ou desejo que pôs a vibrar o elemento pede a repetição do acto que o despertou, e insiste sempre na repetição de acções que pertencem à mesma onda vibratória: vícios, maldade. E algum dia terá o poder necessário para obrigar mesmo o seu criador, o seu deus, a dar largas à satisfação dos seus vícios e maldade. Assim nasce o vicioso, o mau, e assim se criam ou fazem DIABOS. Mas, se as emoções e desejos são de natureza elevada, o espírito elemental que se apodera do material posto em vibração é de índole boa e então fará como o outro; mas como as acções cuja prática estimula são de natureza superior, ele vai ampliando o seu corpo e o seu poder, mas exercerá sobre o seu criador, o seu Deus, um efeito protector, porque a sua natureza é a de um Anjo Custódio.

(...)

 

O Pecado Original

Dando rédea solta aos vícios e à maldade nós criamos um personagem que, depois, nos obriga a seguir pelo tortuoso caminho da degradação e do infortúnio; e ele estará diante de nós no momento da morte, e por isso recebeu o nome de GUARDIÃO DO UMBRAL da outra vida.

Essa monstruosa figura, soma total de tudo quanto fizemos maldosamente, esperará por nós até ao novo renascimento, para se apossar do nosso corpo e nele exercitar os mesmos vícios do passado, o que conseguirá a partir dos sete anos. A este personagem chamam as religiões PECADO ORIGINAL, que já nasce connosco, e por isso, no louvável intuito de o dominar, ou ao menos enfraquecer os seus impulsos, aplicam às crianças o sacramento de baptismo, tão rico de simbolismo e ao mesmo tempo reconhecimento perfeito de que renascemos, e de que o que somos no passado pendemos para o ser no futuro.

O PECADO ORIGINAL não vem de ADÃO e EVA, mas do mau uso que fizemos dos nossos corpos em vidas passadas, e da maldade que praticamos. Por isso nós o criamos e o temos de transformar alquimicamente, de maneira que se dilua e se transforme. E isto levará tempo, mas será a nossa maior vitória na batalha em que nos metemos ao vir a este mundo, para nos graduarmos para mais altas esferas de acção.

Deus está muito acima das nossas misérias, por nós engendradas na luta com as forças da Natureza que nos envolvem e dominam enquanto vivemos neste mundo; nada tem com o Diabo por nós criado e sustentado com os nossos erros, maldade e vícios. Somos vítimas de nós mesmos, da nossa ignorância e falta de atenção à voz da consciência e da razão.

(...)

Notamos, muitas vezes, que o devasso, o fumador, e alcoólico, buscam remédios para se desquitarem dos seus vícios! E a estes diremos que em vão tomam esses remédios, pois o único remédio que podem tomar com êxito está dentro de si: É a VONTADE. Por este motivo, robustecendo a vontade e traçando com firmeza o caminho a seguir no futuro, a vitória será certa. Será o triunfo do Anjo sobre o Demónio.

Parece-nos que, se as religiões instruíssem os seus adeptos nesta ordem de ideias os tornariam mais fortes, corajosos e felizes. Falar-lhes do pecado original sem lhes esclarecer o que é, nem como se vence, é o mesmo que pretender realizar um percurso muito longo, mas marcando passo no mesmo sítio, e pôr um entrave ao triunfo do espírito sobre a cruz da matéria.

O aparecimento de EVA trouxe ao Homem a Humanidade inteira a maior perda que podia sofrer, pois separou-o dos seus guias Divinos, para que lutasse sozinho e aprendesse por si, pelo seu esforço, a ser corajoso, forte, perfeito. Mas, a separação dos sexos não foi um mal. Antes foi um grande bem, pois criou novas directrizes à marcha da nova evolução.

A experiência sexual, a mais dura que temos de realizar, há-de preparar-nos para um maior estado de pureza, pois sempre vai seguindo linhas amorosas, ainda mesmo quando o amor se veste andrajosamente e não conhece as mais elementares regras de higiene; pois quando o prazer não é puro, nem tende a purificar-se, vem o lume do sofrimento a temperá-lo, a dor o corrigirá e lhe dará a necessária pureza.

Por isso mesmo nós temos de reconhecer que o PECADO ORIGINAL tem o seu começo na separação dos sexos. Havemos de concordar que não foi por culpa de ADÃO nem de EVA, mas por uma imperiosa necessidade que nós temos de graduação divina. Por isso era necessário lutar sozinho, sem auxílio externo; era necessário cair no domínio da matéria para depois nos levantarmos. E assim perdemos a consciência do nosso estado anterior, da nossa grandeza espiritual, para que ampliássemos o campo da nossa consciência. Por isso ainda hoje muitos não querem ouvir falar do espírito, nem de outras vidas, porque não podem compreender essas coisas. Eles terão de trabalhar com a matéria, no mundo concreto, até à saturação; e só depois começam a sentir a necessidade espiritual de novos rumos que já não pertencem à Terra.

(...)

PECADO ORIGINAL e DEMÓNIO ou DIABO não são mais que a personificação de toda a nossa maldade ao longo de vidas. Por esse motivo cada um tem o seu. As igrejas que aplicam o sacramento do baptismo deveriam esclarecer os pais e os padrinhos do baptizando sobre a maneira de realizar o sacramento, para que ele pudesse ter bom efeito. Assim fariam profundas alterações no destino da criança e o sacramento exerceria uma acção profundamente salutar.

A melhor maneira de eliminar a maldade é acrescentar a sabedoria.

(Resumo do texto publicado)

Francisco Marques Rodrigues




[ Índice ]