Filosofia

A Origem do Homem

As perguntas mais arrojadas e inquietantes sobre o que é e quem é o homem estão feitas há muito. E, no que se refere à cultura ocidental, as perguntas e tentativas de resposta fizeram, desde há séculos, convergir um número crescente de ciências em que se procuram escalpelizar o corpo, a alma e o espírito dos homens, se estuda a anatomia, se identificam as raças, se analisam organizações sociais, etc. Parece impossível prosseguir nesse estudo. Contudo, os estudiosos mais bem intencionados declaram-se insatisfeitos. Confessam a sua ignorância ou reconhecem a sua impotência. Como disse Alexis Carrel, o homem ainda é o nosso desconhecido.

O retorno às perguntas sobre a origem do homem conduz a variados domínios do conhecimento. Mas as várias disciplinas que permitem explicar o enigma estão completamente descoordenadas entre si. É o caso da paleontologia, da arqueologia e da genética, para só falar em algumas. E depois de um sábio sueco chamado Lineu, ter, pela primeira vez, classificado o homem no reino animal, denominando-o Homo Sapiens, nunca mais as ciências naturais e históricas deixaram de estar em conflito. De uma penada, Lineu deitou para o cesto dos papéis todas as formidáveis diferenças que distinguem os homens dos outros seres. E desde então ninguém se atreveu a questionar e rebater seriamente tal classificação. Até que Max Heindel, no início do século XX, mostrou como era perigoso circunscrever os nossos pensamentos aos quadros e às problemáticas estandartizadas de ciências ou ramos científicos, ficando presos a um jogo de cabra-cega que impede ir mais além ou fazer perguntas inesperadas.

A grande tarefa em que apostou Max Heindel foi a de formular a hipótese, agora já relacionada com a comprovação experimental e, por isso, capaz de ocupar um lugar na Ciência, de a humanidade não ter tido origem numa criatura peluda muito parecida com o chimpanzé. O que ele ensina no Conceito Rosacruz do Cosmo é que a Humanidade actual é o resultado de uma evolução autónoma e isolada dos primatas. E veio assim conseguindo uma nova visão distinta daquele esquema um tanto simplista que fazia jogar entre si as mutações ocasionais e a selecção natural para ir obtendo uma cadeia de sucessos ou insucessos das formas de vida frente ao problema da sobrevivência imposta pelos meios ambientes.

Esta visão de Max Heindel permaneceu sem discussão até à segunda década do século XX. O alemão Max Westenhofer e o belga Serge Frechkop, baseando-se no estudo de embriões, retomam o assunto e defendem, de novo, a tese de o ser humano ser mais antigo que os primatas.

 

A Evolução da Vida

Nesta altura, o estudo comparativo do passado do homem e da sua evolução com os fragmentos de possíveis elos entre o homem e o macaco tornou-se inevitável para decifrar o percurso da onda de vida humana.

Os especialistas começaram por admitir que a humanidade teve como antecedente um grupo de pitecus (do grego pithecos, macaco): parapitecus, pliopitecus, dryopitecus, australopitecus1.

Mas a verdade é que a sucessão geralmente admitida Australopitecus - Homo abilis - Homo erectus - Homo sapiens, tem suscitado, nos anos mais recentes, dúvidas consideráveis. A descoberta de outros fósseis em novos jazigos arqueológicos põem em causa esta sucessão. Os australopitecos mais antigos parecem mais modernos que os seus sucessores. Esta realidade denuncia a existência de um processo degenerativo. Tal processo, que empurrou o australopitecus robustos para uma senda divergente do desígnio natural através da degeneração, já perfeitamente demonstrado.

 

Darwinismo em Crise

Talvez o maior erro do modelo clássico da evolução humana assente na ideia de que a evolução é um processo contínuo e alheio à degeneração2. Parece claro que esta atitude impede a detecção de diferenças fundamentais para a compreensão do fenómeno. É certo que, desde a sua publicação, a teoria darwinista teve uma aceitação que superou possíveis razões científicas, sobretudo pelo desconhecimento da genética. Mas em alguns casos apenas convenceu. Existe agora a convicção de haver algo não demonstrado que se apresenta como científico3. A ausência de dados disponíveis tem servido mesmo, algumas vezes, para reforçar teses filosóficas ou teológicas, dando-lhes o prestígio de argumentos “científicos” que não o são. “As expectativas que alimentam muitas investigações podem contribuir para falsear os resultados alcançados”. Estas palavras são de José Quesada, um evolucionista, de modo que as suas críticas não provêm de uma atitude contrária, não é uma crítica vinda de fora, mas um reconhecimento, vindo de dentro, das suas insuficiências4. O darwinismo como dogma imune à crítica está a desintegrar-se. Além disso, a cronologia darwiniana está a ser confrontada com inúmeras descobertas “estranhas” que, não só pelo seu alcance e significado, mas ainda pelas suas precisões conceptuais, põem em causa conceitos julgado sólidos5.

 

Linha da evolução humana proposta por François de Sarre

Linha da evolução humana proposta por François de Sarre

O Homem é um Animal?

A originalidade de Quesada consiste em fugir ao círculo vicioso de várias teses que se apoiam mutuamente. Demonstra, passo a passo, a insuficiência dos vários argumentos darwinistas. E lança muita luz sobre a antiguidade da linhagem humana sem nunca sair de uma óptica evolucionista. Com base na datação de fósseis por procedimentos físicos, bastante seguros, e na sua comparação com os dados da geologia histórica, estima que a antiguidade da linhagem humana é muito superior à que opina o modelo clássico. Ao analisar os casos especialmente demonstrativos desta antiguidade, Quesada salienta que nunca foram encontrados fósseis de gorilas ou chimpanzés com aquela idade. Isto é bastante sério, já que parece indiciar claramente que a origem desta família de primatas é, inversamente, mais recente do que se pensava.

Ao cabo de muitas pesquisas intensivas, exaustivas e pormenorizadas, Quesada admite, na companhia de B. Kurten, que são “os primatas inferiores que descendem do homem e não o contrário”. Os primatas desprenderam-se da linhagem humana devido a sucessivas transformações regressivas que introduziram as modificações mais visíveis na arquitectura do corpo físico. Estas modificações degenerativas persistem e podem conduzir à própria extinção de alguns primatas actuais. É o caso do bonobo, o chimpanzé pigmeu do Congo. Mas também existem indícios de processos degenerativos no actual homo sapiens. O referido autor cita, por exemplo, a diminuição da estatura, modificações nos ossos do crânio, que se tornam outra vez robustos como no passado, a diminuição da capacidade craniana e a degradação dental, especialmente visível na redução do tamanho dos molares.

Max Heindel aludiu à perda da função visual em animais cavernícolas ou subterrâneos6. Quesada alonga o estudo e assinala idêntica degeneração entre os mamíferos, cetáceos e invertebrados. E ao analisar a emergência do ser humano situa a sua origem na Eurásia — o que condiz, mais uma vez, com os ensinamentos de Max Heindel7.

É certo que a África é habitada deste tempos remotos. Alguns cientistas crêem mesmo que é neste continente que se encontra o berço da humanidade.

Todavia, o estudo dos despojos encontrados em diversos locais, muitos dos quais datam dos mais recuados períodos pré-históricos, permite admitir que a raça negra, nomeadamente os povos Bantos, foi invasora e não aborígene da África. Foi da Ásia Central. A invasão dos Arianos teria impelido os povos do Indostão a procurarem guarida a oeste, na África; e a leste, na Melanésia e noutros arquipélagos da Oceânia. A precederem os negros viveram em África os povos Bochimanes, que se admite serem de origem mongólica. Há quem lhes atribua filiação à gente de Grimaldi, descendente dos povos oriundos da Ásia Central e portadora de um cultura do tipo aurinhacense. Chegou a viver na Europa ocidental. Deste ramo proviriam, além dos Bochimanes, os Negros, Andamanes, Australianos e outros povos8. Foram identificados na África austro-ocidental, pela primeira vez, pelo navegador português Vasco da Gama, em 1497.

Pressionados pelos Bantos, os Bochimanes deslocaram-se para o Sul da África. Dispersaram-se pela a região de Moçâmedes e pelos desertos do Namibe e do Calaari.

Numa informação pessoal, o eminente etnógrafo P. Carlos Estermann, Orientador de um estudo sobre os mitos da criação do povo coisan (Kói, homem-San, povoador) ou Bochimane, lembrou que as língua africanas ao sul do Saara, quer as do grupo Banto falado ao sul do Equador, quer as do grupo afro-asiáticas que inclui as línguas dos Bochimanes! khun, Hotentotes, Hereros, são todas aglutinantes. A este grupo pertencem igualmente as línguas faladas nas ilhas Andaman e Filipinas, Nova Guiné, e pelos aborígenes da Austrália.

 

Ultrapassar a Crença

Retratando assim as raízes da nossa evolução física, podemos admitir que o homem não descende do chimpanzé ou gorila, como geralmente se diz e se escreve, nem de qualquer outra espécie actual de macacos. O conhecimento actual da origem e evolução do homem, fornecido pelos dados fósseis, tem como consequência uma reavaliação bastante drástica da nossa relação com os símios. Agora, é a linhagem humana que tem a mais longa e independente história evolucionária isolada. E nesta linhagem esteve profundamente incrustrada a família dos grandes símios, que, por força da evolução regressiva, ou degeneração, se separaram há uns 6 milhões de anos. Surgiram o chimpanzé moderno e o bonobo. O gorila também seguiu a sua própria trajectória evolutiva. Os símios actuais são as extremidades vivas dos vários ramos da evolução que entraram em regressão a partir da linhagem humana.

O que distingue radicalmente o homo sapiens, o homem “sapiente” dos animais é a inconformidade com o que está por força de estar, e a sua capacidade para transformar a realidade de acordo com o que quer. O que singularizou o primeiro homem “sapiente” foi algo que brotou dentro dele sob a forma de um íntimo apelo que, ao agitá-lo, o conciencializou, isto é, lhe tornou evidente a sua posição no mundo. O homem “sapiente” nasceu, pois, com o despertar do Eu.

Apesar de o homem partilhar 99% do ADN com os chimpanzés, a diferença entre ambos é tal que arrasta consigo a impossibilidade de se cruzarem entre si. Todas esta diferenças são certamente bastante importantes para justificar a criação, em proveito do Homem, de um reino particular: o reino hominal, que compreenda uma só ordem e uma só espécie, a sua.

(Resumo do texto publicado)

Ariel

Glossário

Aurinhacense – A primeira cultura do Paleolítico Superior do Oriente e da Europa.

Australopitecos – Ordem de macacos especializados que ocupa o primeiro lugar na linha que supostamente conduz à humanidade.

Bochimane – Um dos grupos humanos mais puros do ponto de vista racial devido ao seu isolamento. Têm os olhos colocados obliquamente nas órbitas. A cor vai do amarelo-carregado ao amarelo-acastanhado, ou preta. A estatura média é de 1,42m; são pequenos, mas não pigmeus. Praticam mutilações étnicas: circuncisão; mutilações dentárias: fractura e limagem dos incisivos (grupo Cassequele); perfuração do septo nasal. Tatuagens: de relevo ou pigmentares, na face e corpo, geralmente efectuada antes da mutilação dos dentes.

Cultura – Em arqueologia, é o conjunto de objectos, principalmente de cerâmica, e utensílios ou ferramentas várias.

Homo – Género (grupo ou espécie muito próxima) que abrange todos os tipos humanos que fabricaram utensílios nos dois últimos milhões de anos.

Linhagem – Série de populações de antepassados-descendentes que se sucedem no tempo, a qualquer nível, até ao de espécie.

Macacos – Primatas superiores com cauda: macacos do Novo Mundo e macacos do Velho Mundo.

Primatas – Ordem de mamíferos a que pertencem os símios e os macacos, juntamente com os respectivos antepassados e parentes extintos.

Símios – Os quatro símios do Velho Mundo que existem actualmente são: gibão, gorila, chimpanzé e orangotango. Ao contrário dos macacos, nenhum deles tem cauda.

Notas

1 David Pilbeam, A Evolução do Homem; Verbo, 1973; pp 48, 67, 129-141.
2 Cf. Max Heindel, Conceito Rosacruz do Cosmo, 4ª ed., 2005, p., 232.
3 François de Sarre, La Théorie de la Bipedie Initiale – La Remise en Cause Totale de nos Origines, in “5000 d’Histoire Mistérieuse”, Juin, 2009, 70-97.
4 Juan Luís Doménech Quesada, Evolución Regresiva del Homo Sapiens, Noega Artes Gráficas, Gijón, 1999.
5 H. Joachim Zillmer, L’Erreur de Darwin, Edition Le Jardin des Livres, 2009.
6 Max Heindel, Ob. Cit., p. 222.
7 Comunicação apresentada no Congresso Internacional “Ciência e Humanismo no Século XXI – Perspectivas”, em 2005.
8 António de Almeida, Os Bosquímanos de Angola, Ministério do Planeamento e da Administração do Território – instituto de Investigação Científica Tropical; Lisboa, 1994, pág. 398.




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