Filosofia

A História da Natividade

“E, depois que Jesus foi baptizado, saiu logo para fora da água e eis que se lhe abriram os céus e viu o Espírito de Deus que descia como pomba e que vinha sobre ele”. “E eis uma voz dos céus, que dizia: este é o meu filho amado, no qual tenho posto toda a minha complacência” (Mt 3, 16-17).

Quando chegou a época em que a evolução da humanidade requeria a substituição das religiões de Raça, da chefia de Javé (o Espírito Santo) pela religião do amor, Cristo, o Grande Arcanjo, teve de intervir. Mas, devido à Sua tão elevada categoria espiritual, o Seu corpo mais inferior era o unificante espírito de vida. E, para poder intervir aqui na Terra, entre os homens, tinha que agir através de um corpo físico, corpo vital, corpo de desejos e espírito humano. Jesus serviu de mediador ao Cristo desde a idade de trinta anos até ao fim de sua missão no Gólgota. Jesus, pessoa de um elevado grau espiritual, era, de facto, o ser humano mais adiantado da nossa onda de vida. Os seus corpos eram bem organizados e o seu corpo vital estava perfeitamente sintonizado com o mundo do espírito de vida.

Jesus sabia perfeitamente que estava a preparar um veículo (corpo) para o usar ao serviço de Cristo, para que Ele pudesse intervir como se fosse um homem entre os homens. É, portanto, o nascimento do homem Jesus que celebramos nesta época da Natividade. De todas as histórias que se contam no mundo Cristão, a mais relatada e a mais querida por jovens e velhos, é a história do nascimento deste maravilhoso Menino. A narração da Bíblia dá-nos suficiente informação para fazer deste acontecimento tão importante, um caso vivente, pois nunca envelhece e exerce novamente, e todos os anos, a sua influência sobre nós. Fazem-se presentes, cânticos, árvores do Natal e considera-se este dia como de festa para nós, diferente de qualquer outro dia do ano, e a maior parte dos povos recorda carinhosamente estes festivais desde a sua infância, quando muitos outros acontecimentos se esqueceram.

Mas, se bem que cada história registada nas Sagradas Escrituras seja uma informação literal de alguns factos terrestres, existe também outra interpretação mística e simbólica. E se lermos a Bíblia com o desejo de aprender o místico significado destas Escrituras, seremos bem recompensados, pois não são só episódios relativos aos indivíduos, mas também pontos de referência indicando o caminho ao verdadeiro investigador. Parece que todo o Mundo deve tomar parte no acontecimento do nascimento de Jesus. O Arcanjo Gabriel, emissários da onda de vida angélica, profetas, pastores e homens sábios e até a onda de vida animal estavam representados no presépio, O carneiro, nos campos estava presente quando os anjos cantaram; e o humilde asno conduziu Maria a Belém e, depois, quando foi necessário escapar aos homens do Rei Herodes levou-a, e ao santo Menino, ao Egipto.

O Profeta Isaías foi impulsionado a escrever, muito antes do nascimento de Jesus (Is 11,1):

“E sairá uma vara do tronco de Jessé um rebento nascerá das suas raízes.

“E repousará sobre Ele o espírito do Senhor, espírito de sabedoria e de inteligência, espírito de conselho e de fortaleza, espírito de conhecimento e de temor de Senhor.”

Assim Isaías, o místico profeta, podia sentir a necessidade que a humanidade tinha de dar mais um passo para diante na sua evolução muito antes de que aparecesse o auxílio. E do tronco de Jessé vinha o homem que trouxe “A Luz do Mundo”, o que ofereceu o seu corpo para que o Cristo Cósmico pudesse vir à Terra para a redenção da humanidade.

Em S. Lucas encontramos a comovedora história que nos diz que o anjo Gabriel veio a Maria avisando-a do nascimento de um menino (Lc 1, 31-32; 46-48): “e lhe chamarás Jesus, ele será grande e será chamado o filho do Altíssimo”. E depois Maria canta a sua canção de acção de graças: “Minha alma faz louvores a Deus – pois não lhe importou o humilde estado desta sua criada, porque de hoje em diante todas as gerações me chamarão bendita.” Maria foi eleita para ser a mãe de Jesus; devido à sua pureza ela podia proporcionar um corpo do mais alto grau possível de eficiência para o Menino. Diz-se que Maria e José pertenciam aos Essénios, uma ordem extremamente devota que não consentia que se falasse deles, razão pela qual muito pouco se saiba a seu respeito. Gabriel, o mensageiro divino, pertence à vida e classe arcangélica e é próprio que fosse ele a dar o aviso a Maria, porque o Cristo é o maior Arcanjo Iniciado.

No segundo capítulo de S. Lucas lemos a história de como os factos se passaram: “Aconteceu naqueles dias que saiu um édito emanado de César Augusto, para que fosse recenseado todo o mundo. E subiu José de Galileia, da cidade de Nazaré, à Judeia, a cidade de David, que se chama Belém, porquanto era da casa da família de David, para ser alistado com Maria sua mulher, desposada com ele, a qual estava prestes a ser mãe. E aconteceu que estando eles ali, se cumpriram os dias em que ela havia de dar à luz. Nasceu o seu filho primogénito, envolveu-o em panos e deitou-o num pesebre por não haver lugar para eles na estalagem.”

Aqui tocam-se os dois extremos: membros da casa real de David, não encontraram alojamento na cidade, e o santo Menino teve que nascer num estábulo, e o seu primeiro lugar de descanso foi um pesebre, sinal ou símbolo de que toda a humanidade, em todas as condições sociais de vida, estará interessada no nascimento de Jesus. Celebramos o Seu nascimento na noite de 24 para 25 de Dezembro, a noite maior e mais escura do ano no hemisfério norte, que é o mais povoado. As vibrações espirituais na Terra são as mais fortes nessa noite, e portanto é chamada a Noite Santa.

Lemos também no Evangelho de S. Lucas, que o Anjo do Senhor veio aos pastores que estavam nos campos cuidando dos seus rebanhos nessa noite, e os pastores estavam cheios de medo, porque a “Glória do Senhor brilhou em volta deles”. Mas o anjo disse-lhes que não temessem, porque ele trazia boas novas e de grande regozijo para toda a humanidade – novas de ter nascido um Salvador, “Cristo, o Senhor”.

Eles foram encontrar o menino deitado num pesebre. “E repentinamente foi com o anjo uma multidão dos exércitos celestiais louvando a Deus e dizendo: Glória a Deus nas Alturas e paz na Terra para os homens de boa vontade”. Depois dos anjos terem dado a sua mensagem aos pastores e terem terminado o seu canto de louvores, desapareceram, voltando ao céu.

Podemos imaginar o pavor e excitação que estes homens dos campos sentiram quando descobertos os céus, e como desejaram encontrar imediatamente o menino Jesus. “Vieram à pressa e encontraram Maria, José e o Menino deitado no pesebre”. E, assim, sucedeu que estes homens humildes, que trabalhavam nos campos com os seus rebanhos, fossem os primeiros que viram o maravilhoso Menino; foram eles os que estavam sintonizados com as regiões superiores e tiveram o privilégio de contar a história e levá-la ao conhecimento de todos os outros. Todos os que escutavam a mensagem destes homens ficavam maravilhados destas coisas. Mas Maria mantinha em segredo estas coisas e gravava-as no coração.

É um privilégio feminino interessar-se internamente para preservar as tradições e examinar de novo os sucessos da vida. A onda de vida angélica (os anjos) é a humanidade do período lunar, e os anjos são os mestres do homem actual, com relação à propagação e perpetuação da raça.

E eis aqui a história dos três sábios procedentes deste que encontramos descrito no Evangelho de S. Mateus:

“E eis aqui a estrela que haviam visto no oriente, ia adiante deles, até que, chegando, se pôs sobre o lugar onde estava o menino”.

“E vista a estrela se regozijaram com muito grande contentamento”. “E entrando em casa, viram o menino com sua mãe Maria e ajoelhando-se o adoraram, e abrindo os seus tesouros lhe ofereceram dons, ouro, incenso e mirra”.

A adoração dos três Magos, “os magos do oriente”, tem inspirado muitos escritores e pintores, em relatos e quadros, que por sua vez têm inspirado toda a gente. Gaspar, Melchior e Baltazar foram guiados pela estrela até ao pesebre onde estava deitado o Menino. Estes três homens simbolizam as raças negra, amarela e branca. A sua visita a Belém para adorar o “Príncipe da Paz”, significa a unificação de toda a humanidade terrena.

Neste humilde pesebre teve princípio o começo do fim das religiões de raça. Nesse longínquo dia, em que Cristo nasça internamente em cada ser humano, não haverá necessidade das diferentes religiões de raça que agora sentimos. As três raças unidas, inclinando-se ante o menino Cristo, é prognóstico de melhores coisas que hão de vir. Levará tempo a conseguir este desiderato, pois o caminho é longo, mas à humanidade, no final, ser-lhe-á possível cantar com os anjos e com os pastores: “Glória a Deus nas alturas e paz na Terra entre os homens de boa vontade”.

Os três reis trouxeram Ouro, Incenso e Mirra. O ouro simboliza o espírito em sua perfeita pareça, simbolizando também o espírito universal. A mirra simboliza a essência anímica, e é uma planta essencialmente rara oriunda da Arábia. Este segundo sábio ofereceu isto ao Menino, significando os esforços e limpeza da humanidade até chegar a ser pura. A terceira oferta foi o incenso, uma substância física, que simboliza o corpo físico. Por conseguinte vemos os três representantes das raças humanas oferecendo-se a si mesmos, por inteiro: Espírito, Alma e Corpo. Este oferecimento não é para o Cristo externo, mas sim, será oferecido ao Cristo interno – o Homem-Deus.

Bernardo Correia de Almeida




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