Filosofia

A Morte. A Vida no Purgatório


Continuação

As forças do átomo-semente são imanentes em cada um de todos os corpos densos que vão sendo habitados pelo Ego a que se encontra ligado, e sobre o seu plástico substrato estão gravadas todas as experiências daquele Ego particular em todas as suas vidas. Quando voltarmos para Deus, quando voltarmos novamente a ser um em Deus, essa gravação, que é especialmente a gravação de Deus, irá permanecer, e iremos assim manter a nossa individualidade. Transmutamos as nossas experiências, como será descrito, em faculdades; o mal é transmutado em bem e guardamos o bem como poder para um bem maior, mas a gravação das experiências se de Deus, e em Deus, no mais íntimo sentido.

O “cordão prateado” que liga os veículos superiores aos inferiores termina no átomo-semente do coração. Quando a vida física chega naturalmente ao fim, as forças no átomo-semente libertam-se, sobem através do nervo pneumogástrico, pela parte de trás da cabeça e ao longo do cordão prateado juntamente com os veículos superiores. É esta ruptura no coração que marca a morte física, mas o cordão prateado não se rompe de imediato, em alguns casos não por vários dias.

O corpo vital é o veículo da percepção sensorial. Como permanece com o corpo do sentimento e o cordão etéreo liga ambos os veículos ao corpo denso já abandonado, torna-se evidente que até que o cordão se rompa, o Ego irá sentir alguma coisa quando o corpo denso é molestado. Assim, sente dor quando o sangue é extraído e injectado o fluido de embalsamamento, quando o corpo denso é aberto para exame post-mortem, e quando o corpo é cremado.

Foi contado ao autor um caso em que um cirurgião amputou três dedos dos pés a uma pessoa (viva) sob anestesia. Lançou os dedos cortados para um lume de carvão, e o paciente começou imediatamente a gritar, pois a rápida desintegração dos dedos físicos provocou uma desintegração igualmente rápida dos dedos etéreos, que se encontravam ligados aos veículos superiores. Do mesmo modo outros traumas provocados ao corpo denso afectam o espírito desincarnado, de algumas horas a três dias e meio após a morte. Então toda a conexão é cortada, e o corpo começa a decompor-se.

Pelo que deve ser tomado o máximo cuidado em não provocar, com tais medidas, qualquer desconforto ao Espírito que parte. Se leis ou outras circunstâncias obstarem a que o corpo seja mantido por alguns dias em sossego, no compartimento onde a morte ocorreu, poderá pelo menos ser enterrado durante esse mesmo período e só depois tratado como se pretender. Recolhimento e oração constituem um enorme benefício nessa altura e se realmente quisermos bem ao Espírito desencarnado, poderemos merecer a sua duradoura gratidão, seguindo as instruções atrás referidas.

Na Conferência n.º 3 dizemos que o corpo vital é o contentor das memórias consciente e subconsciente; sobre o corpo vital encontram-se indelevelmente gravados cada um dos actos e experiências da vida passada, como a paisagem sobre uma placa fotográfica. Quando o Ego o separa do corpo denso, toda a vida, como registada pela memória subconsciente, fica aberta aos olhos da mente. É a separação parcial do corpo vital que provoca a visão da vida passada à pessoa que se afoga, mas trata-se apenas dum rápido lampejo que antecede a inconsciência; o cordão prateado permanece intacto, ou não poderia haver reanimação. No caso dum Espírito que se vai pela morte, o movimento é mais lento; o homem permanece como um espectador enquanto as imagens se sucedem, da morte para o nascimento, de modo que ele vê primeiro os acontecimentos imediatamente anteriores à morte, a seguir passam os anos da maturidade; seguem-se a juventude, adolescência e infância, até que termina no nascimento. O homem, contudo, não tem nessa altura qualquer sentimento em relação a tais imagens, trata-se apenas de imprimir o panorama da vida passada no corpo de desejos, que é o veículo do sentimento e a partir dessa impressão o sentimento manifestar-se-á quando o Ego entrar no Mundo do Desejo, mas devemos aqui notar que a intensidade dos sentimentos depende do tempo utilizado no processo de impressão, e da atenção que é prestada pelo homem a tal processo. Se não for perturbado por um longo período, por barulho e histeria, uma impressão clara e profunda ficará gravada no corpo de desejos. No Purgatório, sentirá mais vividamente o mal que praticou, e estará muito mais fortificado nas sua boas qualidades no Céu, e embora a experiência se perca na vida futura, os sentimentos irão permanecer, como a “pequena voz silenciosa”. Quando os sentimentos tiverem ficado profundamente gravados no corpo de desejos de um Ego, esta voz falará nítida e claramente. Levá-lo-á para além do negativismo, forçando-o a desistir daquilo que causou sofrimento na vida passada e impelindo-o a seguir o bem. Por isso o panorama passa AO CONTRÁRIO, de modo a que o Ego veja primeiro os efeitos e só depois as causas subjacentes.

Quanto ao que determina a duração do panorama, lembremo-nos que foi o colapso do corpo vital que obrigou os veículos superiores a retirarem-se; assim depois da morte, quando o corpo vital colapsa, o Ego tem de se retirar e desta maneira o panorama chega ao seu fim. A duração do panorama depende, portanto, do tempo que a pessoa conseguir permanecer acordada. Algumas pessoas conseguem permanecer acordadas apenas algumas horas, outras conseguem aguentar-se por alguns dias, em função da força do corpo vital de cada um.

Quando o Ego abandona o corpo vital, este gravita de volta ao corpo denso, permanecendo a pairar sobre a sepultura, decompondo-se sincronicamente com o corpo denso e é realmente uma visão repugnante para o clarividente que passa por um cemitério e contempla todos aqueles corpos vitais, cujo estado de decomposição indicia claramente o estado de decomposição dos restos mortais na sepultura. Se existissem mais pessoas clarividentes, a incineração seria rapidamente adoptada como medida de protecção dos nossos sentimentos, senão por razões sanitárias. Quando o Ego se liberta do corpo vital, rompe-se o seu último elo com o mundo físico e entra no Mundo do Desejo. A forma ovóide do corpo de desejos então altera-se, assumindo a aparência exterior do corpo denso abandonado. Verifica-se, contudo, uma peculiar disposição das matérias de que se compõe, de grande significado na espécie de vida que o morto ali irá levar.

O corpo de desejos do homem compõe-se de matéria das sete regiões do Mundo do Desejo, como o corpo denso se compõe dos sólidos, líquidos e gazes do Mundo Físico. Mas a quantidade de matéria específica de cada região, no corpo de desejos do homem, depende da natureza dos desejos que ele alimenta. Desejos grosseiros são formados da matéria de desejo mais grosseira, que pertence à região mais inferior do Mundo do Desejo. Se uma pessoa alimenta tais desejos, está a construir um corpo de desejos grosseiro, em que predomina a matéria das regiões mais inferiores. Se, persistentemente, afastar de si esses desejos, entregando-se apenas à pureza e ao bem, o seu corpo de desejos será composto das matérias das regiões superiores.

Continua

Max Heindel
in Cristianismo Rosacruz
Tradução de M.L.M.




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