Filosofia

As Marchas Populares

Na Grécia antiga celebravam-se diversos festejos em honra das divindades femininas1. As cerimónias deste culto lunar, com as respectivas sacerdotisas, as bacantes, tinham lugar nas florestas e vales. Pela dança, desenfreada até ao esgotamento físico, ao som de instrumentos ruidosos, perdia-se o equilíbrio e a personalidade dissolvia-se numa “loucura sagrada”. Esta prática ajuda-nos a compreender a relação entre a emoção, os transes, os êxtases e os estados teopáticos descritos pelos místicos de todas as crenças.

Enquanto o culto místico, feminino, de Dioníso2 se propagava, o culto de Apolo, solar e masculino, mantinha-se isolado nas montanhas e desertos. Era servido por um corpo sacerdotes regulado por severos preceitos. Segundo Tito Lívio (59 a.C – 19 d.C), o oráculo de Apolo, em Delfos, foi o “oráculo do género humano”. Tempos depois, Apolo era venerado ao mesmo tempo que Dioniso.

(...)

Com a helenização de Roma os mistérios dionisíacos instalaram-se na Itália. Embora tenham sido proibidos por decreto do Senado Romano em 186 a.C., essa corrente mística manteve as suas tradições até à época imperial. Difundiram-se por todo o Ocidente. Tiveram influência, directa ou indirecta, na arte, na religião e na essência de muitas festas tradicionais. É fácil até identificá-la nas touradas, onde transparecem aspectos do ritual do sacrifício do touro, e nos elementos que compõem as procissões religiosas3.

Há um ponto de contacto entre a emoção mística e o êxtase, como ensina Max Heindel4. É nesse ponto em que se ligam os pólos sensível e inteligível, e onde a arte toca a emoção. Para tentar explicar a visão que esse contacto permite, o homem primitivo dispunha de meios reduzidos: o seu corpo e pouco mais. Traduzia as emoções causadas por esse contacto por meio da dança e do ritmo. A dança, ou o bailado, foi a primeira tentativa do homem para se desprender da matéria. Como processo espiritual, a coreografia adopta o meio mais rude, mas que é a expressão materializada mais completa da emoção e, ao mesmo tempo, sua indutora.

 

Do Comer e do Dançar nas Antigas Procissões

A primeira festa de que há memória histórica em Portugal ocorreu em 25 de Outubro de 1147. Nesta época, a “festa” aparece como elemento profano, mas privilegiado, do culto religioso. A forma festiva mais genuína é a procissão. Serviam, como diz Castilho, “para entreter e divertir o povo, sem o prejudicar”5.

“Por inteiro ao passado pertence, infelizmente, o colorido fantástico dos cortejos religiosos da Idade Média nas procissões, onde as folias dos actores de nível pagão decorria num ambiente repleto de incensos, rezas e hossanas. Tudo a contento de todos, talvez porque o sagrado e o profano entrelaçado nas procissões não fosse mais do que o espelho fiel do quotidiano repartido entre os deslumbramento da fé e a violência brutal e sensual do dia-a-dia daqueles tempos”6.

D. João II franzia o sobrolho cada vez que lhe davam notícia dos excessos cometidos. Quis acabar com tais exageros por carta régia de 31 de Agosto de 1487. Proibiu a prática de jogos e de outros semelhantes entremeses integrados em cerimónias processionais. Mas o povo ignorou essa proibição de papel. Tudo se manteve como era costume durante séculos, com danças, jogos, folias, corridas de touros e luminárias nocturnas7.

(...)

Incomodado com o rumo das procissões, o bispo D. João de Castelo Branco intervém num sínodo realizado em 1720 na Sé de Elvas. Apela à intervenção da autoridade eclesiástica para tentar pôr termo aos habituais excessos. Mas só o tempo e um feixe convergente de circunstâncias diversas mudariam hábitos e costumes. Mais de sessenta anos depois tudo se mantinha na mesma, como revela o espanto de Lord William Beckford, em 1787, com o alvoroço e ruído dos festejos antoninos.

 

A Expressividade Religiosa

As “Festas dos Fogos” existem em toda a Europa e em certos dias do ano. São mais frequentes na época dos solstícios e dos equinócios. O costume de festejar o solestício de Verão, que ocorre em 21 de Junho, estende-se aos povos muçulmanos do norte de África, o que é notável, porque o seu calendário, exclusivamente lunar, não assinala festas em pontos fixos do ano solar.

Este facto evidencia que a festa do Solestício de Verão é independente da religião oficial e a persistência de hábitos muito mais antigos.

Em Portugal comemora-se o São João desde tempos antigos, integrado no ciclo dos velhos ritos solesticiais de Verão.

(...)

São João é acima de tudo um “santo casamenteiro”. As cidades do Porto e Braga são as metrópoles portuguesas em que se promovem os festejos são-joaninos com maior exuberância.

Em Lisboa, Santo António é o mais evocado pelo imaginário popular. As suas origens e nascimento são confusas e até contraditórias. Neste caso, como em tantos outros, a história está ao serviço da devoção. O rigor histórico é claramente “ajudado” pela imaginação dos biógrafos. Por isso, a sua biografia ultrapassa as barreiras da história e deve ser tomada como literatura religiosa exortativa9.

Diz-se que António, Fernando de seu nome próprio, nasceu em 15 de Agosto. Mas os festejos que lhe são dedicados celebram-se em 13 de Junho. É a data em que se finou e a mais próxima do solestício de Verão. A falta de coincidência das datas permite outras interpretações, mas não invalida a teoria solesticial, já que os festejos são, abertamente, uma festividade integrada no ciclo dos ritos dedicados ao Sol e um desdobramento e antecipação das festas de São João.

O culto de Santo António, que também inclui nos seus talentos o de arranjar bons casamentos, oscila entre o religioso e profano. As marchas que se integram no evento são prolongamento do “folgar das hortas” que alimentaram retiros famosos até ao século XIX, repletos de danças sensuais e festins nocturnos10. Não faltavam, amiúde, os “combates de touros”.

Encontram-se nestas festividades as atitudes mentais e todo o acervo de uma cultura material que é bem o espelho desta relação solesticial. Se não existisse Fernando de Bulhões, outra biografia teria sido idealizada pelos lisboetas para festejarem neste período do ano os momentos mais altos de fecundidade e de fertilidade da natureza.

De um lado vemos as missas e as procissões; do outro, os arcos e os balões, os cortejos alegóricos e arraiais com a sua típica indisciplina inocente.

(...)

Conclusão

Numa breve reflexão sobre estes costumes e crenças vemos que a religião popular deriva da religiosidade instintiva e espontânea, comum a todos os homens e povos. Há dois aspectos fundamentais nas manifestações de religiosidade natural: o temor e a admiração. Temem-se as forças poderosas e adversas da natureza, imanentes ou transcendentes; admiram-se estas mesmas forças ou poderes invisíveis.

O temor dá origem à reverência e ao respeito, à oração com fins impetratórios em ocasião de perigo; propiciatórios, diante do sentimento de culpa; ou apotropaicos, face ao mal e suas forças. A admiração desperta o entusiasmo e a gratidão. Conjugando estes dois aspectos, o temor e a admiração, a religiosidade popular torna-se instintiva, naturalista e até mesmo utilitarista.

E também vemos que o cristianismo nascente, como religião positiva e revelada, fez a osmose de mitos astrais — com o sentido de “símbolo velado que encerra uma grande verdade cósmica”11 — e de festas e celebrações pré-cristãs e judaicas de índole naturalista. A Igreja Católica, hierárquica e controladora dos dogmas e dos ritos, lançou, por seu lado, um véu sobre algumas práticas antigas, designadamente sobre a origem das “Festas dos Fogos”. Ousadamente, considerou as fogueiras de São João um sinal de regozijo pelo nascimento do Baptista.

(...)

Parece igualmente haver nas marchas antoninas elementos significantes, tanto na coreografia, na cenografia e nas motivações, que são tipicamente dionisíacos: a época, a hora e locais das representações, ruidosas e fortemente emotivas. Todos eles são evocadores da ânsia de integração no mistério da vida pela descida ao subsolo dionisíaco através da “loucura sagrada”.

Como em muitos outros casos, as suas origens são predominantemente relacionados com os ciclos da natureza, quando o homem melhor sente as suas raízes telúricas e, portanto, lhe é mais fácil experimentar a pressão imanente da terra-mãe. E por isso foram inscritos no calendário religioso, para celebrar de maneira litúrgica os acontecimentos da vida de Jesus e ajudar à veneração das figuras religiosas.

(Resumo do texto publicado)

Ariel

Notas

1 Cf. Eurípedes, As Bancantes; Ed. 70, 1998. É um dos melhores documentos existentes para estudo desta manifestação religiosa.
2 Diónisos, ou Baco como lhe chamaram os romanos. O culto de Dioniso, de origem oriental, era um culto de mistério, onde havia danças condutoras a êxtases, durante as quais os praticantes caiam em transes vários. Os seus ritos destinavam-se a purgar os homens dos seus desejos emocionais e irracionais.
3 Rafael López Pedraza, Dioniso no Exílio. Paulos,S. Paulo, 2002; p. 49-51.
4 Max Heindel, Iniciação – Antiga e Moderna, F.R.P., Lxª 1999; pp 72, 90.
5 Citado por Marília Amaral, As Marchas Populares, p. 23, Setecaminhos, Lisboa, 2006.
6 Manuel Guimarães, Histórias de Ler e Comer, Vega, Lxª 1991; p. 43.
7 Id., Ob. Cit.; p. 45
8 Id., Ob. Cit.; p. 46
9 A. J. de Gouvêa Neves, Santo António de Lisboa; Porto, 1950; Miguel d'Almeida Paile, Santo António dos Portugueses em Roma, 2 vols., Instituto Português de Santo António em Roma, 1951, etc.
10 Carlos Caseiro, A Marcha é Linda, Ideias & Rumos, 2003, pp 41-45.
11 Max Heindel, Mistérios das Grandes Óperas, F.R.P., Lxª, 1997; p. 6.




[ Índice ]