Filosofia

A Mão de Deus...

Quem nasceu com pendor para as pesquisas históricas e não se confina inteiramente na sua época, é surpreendido muitas vezes por estranhos movimentos renovadores das condições humanas e terrenas. São perfeitamente cíclicos e independentes da vontade do Homem. E nem sempre se atina com a razão desses acontecimentos que, tantas vezes, mudam completamente os hábitos humanos, ao ponto de caírem religiões e sistemas políticos, dando lugar a outros para bem da Humanidade!

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Muitos cataclismos destruidores tinham essa função. Mais tarde, quando o sofrimento já tinha despertado a consciência lúcida na onda humana, que na Terra luta por mais altas perspectivas, é o próprio Homem que se associa às forças da Natureza para desencadear outros graves acontecimentos.

É o caso das guerras, das pestes, da fome e do medo! E parece que ninguém se preocupa com estas coisas, que todos as aceitam como inevitáveis, sem esboçarem o menor esforço no sentido de descobrir a razão profunda de tudo isto!

Desta indiferença não resulta benefício algum para a Humanidade. E, por isso, somos de opinião que tais fenómenos devem ser estudados.

É preciso esclarecer a consciência dos povos.

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Os mundos que vogam no espaço sideral em maravilhosa harmonia, não foram obra dos seres humanos!

Quem os teria feito? Eis uma pergunta própria de seres inteligentes, sempre ansiosos por saber o porquê das coisas. Diante desta prodigiosa obra somos forçados a admitir um Poder infinitamente superior ao Homem. Para o designar temos de lhe dar um nome. Este nome pouco nos dirá. Talvez nem diga coisa alguma! É um nome, apenas, que nos assinala um altíssimo Poder Criador! Ele é a origem de todas as coisas. Nele vivemos e nos preparamos, a bem ou a mal – por nossa própria vontade ou contra ela – para mais elevadas missões.

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Tem uma origem e uma finalidade. E assim temos de aceitar plenamente que tudo quanto existe, neste e nos outros mundos que navegam no espaço sideral a velocidades vertiginosas, está sob a regência desse mesmo Grande Ser. Ele, que tudo criou e governa, tudo fez com perfeição absoluta. E como toda a perfeição requer esforço, e o esforço implica sofrimento, nós concluiremos que toda a perfeição é obtida à custa daquilo que chamamos dor, e que todo o sofrimento é um estímulo para nos elevarmos. E nesta ordem de ideias perceberemos que os cataclismos que periodicamente açoitam a Humanidade operam como impulsos salutares. Estão destinados a renovar as nossas forças e a chamar-nos ao uso delas com o fim de nos elevarmos cada vez mais nas esferas a que pertencemos. Por este motivo não devemos maldizer do que nos faz sofrer. Nem devemos temer o sofrimento. Sabemos que ele passará logo que tenhamos atingido a perfeita harmonia com os desígnios divinos de perfeição, a que nós também chamamos evolução. Podemos apressá-la por meio da epigenésia, que é um esforço porfiado para melhorar o nosso modo de ser, a nossa conduta. E desta maneira podemos chegar mais depressa à meta que nos está destinada.

Nos provérbios populares há muita verdade e sabedoria sobre este assunto! Vejamos alguns.

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“Deus escreve direito por linhas tortas”. Aqui temos outro sábio rifão para que saibamos que, por mais esforços que façamos para vencer o divino, este sempre estará acima de nós. E vai levar-nos pelo justo caminho, para que não nos percamos da linha que temos de seguir. E quando algum de nós se esquece da mesquinhez humana, e quer usar dum poder absoluto, acaba por cair ridiculamente na armadilha que prepara para esmagamento dos seus semelhantes, dos seus irmãos. É que, se admitimos que Deus é o Criador, o Genitor de todos os seres, ipso-facto admitimos que todos os seres são nossos irmãos. Logo, temos de olhar para eles sem ódio, ainda mesmo quando temos de os compelir ao respeito pelo semelhante.

Neste mundo tudo se mostra organizado de maneira que não depende da vontade dos homens. Apenas da mão de Deus! Estamos a ser surpreendidos constantemente por acontecimentos que inteiramente mudam o curso à vontade humana!

 

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Quando o Sol, por precessão, se aproxima de um signo do Zodíaco e entra na sua influência, logo na Terra se inicia um movimenta de renovação social! E como a renovação implica modificação do existente, a luta começa entre o que vem e o que está, entre o invasor e o invadido. Só terminará quando o Sol estiver inteiramente no signo de que se aproximou a uma velocidade de cerca de cinquenta segundos de grau por ano, estando nesta altura operada a transformação completa.

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O sol dá a volta a todo o Zodíaco em cerca de 26 mil anos. Desta maneira, a Terra, e tudo quanto nela existe, modifica-se para melhor! É a mão de Deus a geometrizar, a dar as linhas, a estabelecer os esquemas das civilizações. E por isso os hábitos vão mudando, caiem religiões e outras se despertam para o bem da Humanidade. Desta maneira, os povos hão-de ser mais bem conduzidos por novas doutrinas, ainda não poluídas pela maldade humana.

Em nossos dias assiste-se ao derrocar dum aspecto da civilização e ao erguer de outro. Por isso os seres humanos se mostram desnorteados. Não dão conta do mal que fazem mas, certamente, andam mal. E até os que procuram deter o avanço das forças renovadoras lhes dão o seu apoio inconscientemente. Ao procurar reprimi-las, aceleram a marcha dos acontecimentos! Tudo se conjuga para o mesmo fim: renovar o mundo!

A perturbação domina por toda a parte! Tudo parece encaminhar-se para o caos! Porém, nós confiamos no Poder Divino, que tudo ordena com a maior perfeição.

O autor nasceu no século XIX. Vem assistindo ao rolar do tempo sobre as antigos hábitos. Pode concluir, a avaliar pelas modificações que já viu ocorrer no esquema da nossa civilização, que muito mais se há-de ver ainda até que tudo esteja na ordem devida. Assim, o Homem, que não voava através do espaço, como só o faziam as aves, voa agora e com mais poder e perfeição que as próprias aves!

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Nada podemos exigir se nada damos; o manjar da vida há-de ser inteiramente compartilhado pela mulher e pelo homem, em perfeita igualdade nos direitos e nos deveres. Esta será a grande lição a estudar. E, para isso, o homem e a mulher encontram-se agora, de um modo geral, na mais íntima harmonia.

Também assistimos a grandes mudanças sociais! Vemos nas crianças um despertar intelectual muito precoce. Por vezes são incompreendidas pelos seus genitores. E elas, por sua vez, também não os compreendem. Esta é, certamente, uma causa das graves dificuldades na sua educação.

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Contudo, as nações não se entendem. As decisões que tomam vão muitas vezes no sentido de aumentar a insegurança colectiva. Chega-se ao ponto de os próprios organismos destinados a manter a paz serem verdadeiros focos de desordem!

Mas até as guerras trouxeram, também elas, uma poderosa contribuição para o desgaste que vai sofrendo a nossa antiga civilização. Contribuem assim para a grande transformação a que estamos assistindo, que é impulsionada pelas próprias forças em jogo. O presente luta para deter o porvir com todas as suas consequências; o futuro procura esmagar o passado, no qual apenas vê dificuldades, obstáculos. De tudo isto se conclui que todos os cataclismos são necessários ao avanço da civilização. Por isso mesmo eles foram produzidos no princípio da nossa evolução, pelas próprias forças cósmicas. Agora, porém, é o próprio Homem que procura associar-se com essas forças para mais facilmente desencadear outros cataclismos. Não percebe que agindo assim também fomenta o avanço evolutivo – ainda que por meios desagradáveis e dolorosos.

Também a arte tem sido usada para enfraquecer a moral dos povos. Recordemos certas formas musicais e de artes plásticas em que se perde a noção das realidades e se menospreza a moral, contribuindo assim para a corrosão da estrutura social.

Todavia, não devemos temer o futuro. O que temos de fazer é realizar esforços para que ele seja melhor que o presente.

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A vontade humana pouco vale diante do Poder Divino. Por isso mesmo os seres humanos são deixados entregues a si mesmos para que façam o que desejam, visto que terão de assumir a inteira responsabilidade emergente dos seus actos.

Depois da queda faremos os esforços necessários para nos levantarmos.

Humanidade voltará a encontrar o seu ponto de equilíbrio.

Felizes são aqueles que não se deixam arrastar pelas correntes deletérias do mal!

(Resumo do texto publicado)

Francisco Marques Rodrigues.




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