Filosofia

A Importância das Palavras
e o Cérebro Humano


A língua pode desencadear um fogo através da palavra – o que remete para o imenso poder que esta detém.

A sabedoria popular sempre nos preveniu sobre esta realidade presenteando-nos com provérbios variados.

Dizem-nos alguns povos orientais, respectivamente chineses e japoneses, que a língua é como uma faca afiada que mata sem derrame de sangue; ou que devemos temer mais a língua do que a espada.

A língua é uma metáfora que remete para a palavra e o seu poder. As palavras surgem-nos personificadas, animadas, como se tivessem uma existência autónoma relativamente ao aparelho fonador que as produz.

A linguagem verbal – feita de palavras – conduz-nos os pensamentos em direcções específicas, ajudando-nos a criar a realidade e potenciando ou limitando as nossas possibilidades.

Mas o poder da palavra provém de uma máquina ainda mais poderosa e misteriosa – não obstante os avanços da ciência relativamente ao seu estudo. Refiro-me ao cérebro humano e aos seus hemisférios. Como dois bons vizinhos, coabitam lado a lado, com funções aparentemente autónomas, responsáveis pelos nossos variados quotidianos.

O cérebro humano continuamente cria imagens mentais, sendo que esta é uma das formas elementares e fundamentais para a nossa orientação e posicionamento no mundo.

A estruturação mental de imagens permite ao cérebro criar relações entre os objectos no espaço físico que os nossos sentidos podem detectar. Baseado nessas mesmas imagens, escolhemos como interagir com o mundo. As imagens são a fonte primária da escolha do nosso comportamento. Daí a importância daquilo que apreendemos através da visão (o que vemos) e a da linguagem (que ouvimos e aprendemos para emitirmos). A imagem verbal tem um efeito poderoso no comportamento humano.

Ao ouvirmos uma determinada palavra, o nosso cérebro rapidamente a processa através de uma imagem. O que acontece com frequência é que a imagem que criamos no cérebro é o oposto à ideia que queríamos transmitir. Como qualquer máquina, um imenso laboratório de reacções químicas, o nosso cérebro também tem os seus “bugs”. Uma particularidade do seu funcionamento parece ser a de não processar a palavra “não”. Aparentemente, aquilo que parece ser uma brincadeira, é um facto real e comprovável através de estudos credíveis.

Experimentem não pensar num hipopótamo cor de rosa: pois é! Foi mesmo a imagem do hipopótamo que surgiu – ao invés da sua inexistência.

Depois, é a forma como a nossa mente lida com as imagens que produz – operando através de um processo interno conhecido como dissonância cognitiva – e procurando transformá-las numa realidade. No caso do hipopótamo cor de rosa, não haverá grande propensão a que este saia de um autocarro ou cruze connosco no semáforo. Mas com outras imagens, o caso muda de figura.

Se somos daquela espécie de pessoas que passam a vida a queixar-se, a lamentar-se que tudo lhes corre mal – que são muito infelizes... cuidado! Provavelmente é tudo isso que atraem para si mesmas através das palavras que proferem contínua e repetidamente. O uso do mas (que nega tudo o que vem a seguir; exemplo: eu jogo no totoloto mas nunca me sai nada, Então porque joga? As expressões não consigo, não posso, não sou capaz que, a priori estão desde logo a limitar a capacidade humana de realização; o se que implica incerteza (e que pode ser substituído pelo quando – exemplo: substituir “se eu passar no exame” – coloca a hipótese de chumbar/ quando eu passar no exame – essa hipótese não é sequer colocada).

O verbo tentar que implica a nossa possibilidade de falhar (exemplo: vou tentar deixar de fumar; se a ideia e a vontade é mesmo deixar de fumar, a frase correcta a proferir e repetir é vou deixar de fumar).

As palavras são também muito importantes quando nos dirigimos aos outros. Os elogios parecem ter caído em desuso, contudo, qualquer ser humano os aprecia – e essas palavras amáveis que proferimos podem mesmo mudar o rumo dos nossos dias. Quando elogiamos alguém, criamos no outro e em nós uma onda de bem estar, acompanhada de um sorriso, de uma boa intenção face ao mundo. Elevamos a estima do outro – e a nossa própria estima – porque nos comportámos como um ser humano “de qualidade superior”. E não é necessário mentir ao outro, dizendo-lhe que está muito elegante quando traz uma camisa às riscas com umas calças às bolas. Há muitas formas de elogiar. Pessoalmente, o elogio faz parte do meu vocabulário diário face às pessoas com quem comunico. Porque as palavras são poderosas. E ao elogiar o outro, crio na sua mente a imagem que lhe sugeri. E o processo de dissonância cognitiva é exactamente o mesmo.

Esta história dos dois hemisférios no cérebro não é uma invenção recente: Platão foi o primeiro a postular, no mundo ocidental, a ideia da existência de dois aspectos distintos na mente humana. A um chamou “Logistikon”, a parte racional do ser humano; ao outro chamou “Nous”, a parte intuitiva.

O lado esquerdo do cérebro está associado ao intelecto, relacionado com o pensamento convergente, abstracto, analítico, calculista, linear, sequencial e objectivo – concentra-se nos detalhes e nas partes do todo. Este lado produz pensamentos directos, verticais, realistas, frios, poderosos e dominantes.

O lado direito está associado com a intuição e relacionado com o pensamento divergente, imaginativo, metafórico, não-linear, subjectivo, concentrando-se no todo das coisas. Produz pensamentos flexíveis, divertidos, complexos, visuais, diagonais, místicos e abstractos.

“Raramente penso só com palavras”, disse Einstein. A visualização daquilo que pretendemos é importantíssima para a realização. Associada às palavras certas, repetida em doses razoáveis acaba por encontrar eco no campo infinito de possibilidades. Tal como a instalação de um novo hábito.

O cérebro é um imenso laboratório onde as reacções químicas acontecem em cadeia. Os neuropeptídeos1 são, em parte, os responsáveis por essas ignições e ligações neuronais. Foram descobertos em 1975 por dois cientistas escoceses, John Hughes e Hans Kosterlitz, que se depararam com uma substância desconhecida a que denominaram como enkephalin2.

Ao analisar a sua estrutura, descobriram que é composta por outras duas substâncias: nomeadamente, uma cadeia de aminoácidos conhecida como péptideos que, por sua vez, estão envolvidos em muitas actividades, desde o envelhecimento até ao combate da dor.

Estes peptídeos – designados como “moléculas da emoção”, pela cientista Candace Pert (PhD em farmacologia) e inteligentemente animados no documentário “What the bleep do we know?”3 são, em grande parte, motivados a estabelecer ligações neuronais por nós propostas numa base repetitiva, como se o próprio organismo tivesse a lidar com uma dependência química idêntica à de qualquer droga. Somos então viciados em emoções, em palavras e actos e por estarmos presos a esta engrenagem, repetimos padrões de vida e situações a vários níveis, nomeadamente o emocional.

Estas ligações são, contudo, susceptíveis de se alterarem – e mesmo de se criar novas ligações neuronais. Daí a importância do estabelecimento de novos hábitos e de quebras de padrões.

O nosso cérebro é uma engrenagem fabulosa. Quando tomamos consciência e percebemos o funcionamento das ferramentas que possuímos, torna-se mais fácil usá-las a nosso favor. Ou seja, reconhecendo estes padrões repetitivos das nossas vidas, associados, frequentemente, ao mau uso das palavras – por culpa desta nossa língua afiada que mata sem derramar sangue – podemos mais facilmente alterá-los a nosso favor.

Uma das mensagens mais importantes, na minha opinião, sobre o funcionamento do nosso cérebro, é a seguinte: a nossa máquina não distingue entre uma acção vivida ou uma recordada. Em termos práticos, tal significa que os mesmos circuitos são accionados. Concretamente, se a recordação vivida for “menos boa”, estamos a sobrecarregar o sistema com as mesmas reacções bioquímicas que ocorreram no momento das “desgraças”. Se a recordação for muito boa, accionamos os centros do prazer no nosso cérebro.

Esta é uma informação importantíssima, especialmente se somos daquele tipo de pessoas que estão sempre a reviver as desgraças próprias e as alheias.

Mas afinal, tudo isto não é assim tão novo. Aristóteles já o tinha mencionado: “We are what we repeatedly do. Excellence then is not an act, but a habit.”4.

A partir de agora, pensem um pouco mais nas palavras que proferem e usem aquelas que, no dizer de Alexandre O’Neill,

 

“Há palavras que nos beijam

Como se tivessem boca...”

Anabela Leandro
Novembro, 2009

 

Notas

1 Os neuropeptídeos são biomoléculas formadas pela ligação de dois ou mais aminoácidos através de ligações do tipo amida. Este tipo de ligação entre dois aminoácidos é comummente chamada de ligação peptídica. Os peptídeos são resultantes do processamento de proteínas e podem variar de dois ou mais aminoácidos.
2 Do grego, dentro da cabeça, visto ser o local onde é produzida.
3 O documentário “What the bleep do we know?”, no mercado nacional em DVD e com o título traduzido para “O que raio sabemos nós?” é de visionamento quase obrigatório para quem se interessa por estas questões – e outras.
4 Nós somos o que repetidamente fazemos. A excelência não é um acto, mas sim um hábito.




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