Filosofia

A Fé e a Ignorância

Aos ricos, para que sejam ainda mais ricos;
aos pobres, para que saibam apreciar as causas da sua pobreza.

Nós temos a fé numa alta consideração. Sabemos que, por meio dela, se conseguem muitas coisas. Por isso queremos fazer uma destrinça entre a fé e a ignorância, já que muitas vezes se chama fé ao que verdadeiramente não é fé, mas um produto da ignorância. E, neste caso, chama-se, muito simplesmente, superstição.

A fé consiste em confiar inteiramente no poder divino, em Deus e nos seus agentes, e em fazer os necessários esforços para triunfar nesta vida. Mas, como a finalidade da nossa existência neste mundo é buscar o aperfeiçoamento, o nosso triunfo não deve ser o resultado do esmagamento dos nossos semelhantes ou no esbulho dos direitos alheios, mas no domínio de nós mesmos, dos nossos vícios e defeitos.

O poder divino nunca estará connosco se não fizermos esforços para ser justos e bons com todos os que nos cercam ou vivem no mesmo ambiente.

Ter fé é muito bom! Permite-nos viver com mais calma, ser mais felizes, porque sabemos que não estamos sós e que os poderes celestes nos envolvem e nos ajudam na luta pela emancipação espiritual das misérias terrenas.

(...)

A fé nunca poderá ser imposta! Se o for, deixará de ser fé para ser Medo! Foi este o que resultou dos métodos inquisitoriais empregados durante séculos: originou uma vaga alterosa de sofrimentos cujos efeitos ainda perduram para vergonha da Humanidade.

A ignorância é má conselheira. Desvia-nos sempre do bom caminho; destrói a fé; ergue pedestais à superstição que só pode inferiorizar os seres!

A fé tem de ser iluminada pelo conhecimento! Só esclarecida, com todo o cuidado, pode fortalecer-se e criar poder.

Manter os crentes na ignorância não é cumprir o preceito cristão que nos impulsiona a procurar o conhecimento dos mistérios. Por isso, o cristianismo foi sempre religião e escola, onde se orava e pregava a verdade, sendo os fiéis esclarecidos inteiramente sobre os mistérios da fé. (...)

“Vós sois guardados pelo poder de Deus por meio da fé”...

Parafraseando o texto de Pedro: Deus e os seus poderes estarão sempre connosco se tivermos fé, se confiarmos no poder divino e se tudo fizermos para ajudá-lo: Se assim não for, a fé sozinha não basta para nos ligar aos celestes agentes. A FÉ SEM OBRAS É MORTA! E para ser viva a nossa fé tem de ser acompanhada por acções bondosas em favor dos outros, que tanto podem ser da nossa espécie, como animais e até plantas. Tudo quanto vive neste mundo necessita de amor, de cuidado e de carinho. É neste mundo, onde nos encontramos, que temos a aprender as grandes lições que precisamos. E todas elas devem andar ligadas à fé, queremos dizer, ao amor, nas suas mais belas facetas, sempre despidas de interesses materiais ou mundanos. Se o nosso amor se limita ao nosso companheiro de matrimónio, aos nossos filhos e parentes, nunca faremos qualquer depósito no BANCO CELESTE! Seremos pagos pela mesma moeda! Nós amamo-los e eles amam-nos! E tudo fica liquidado assim. Se temos amor ao dinheiro e aos “bens” terrenos e gozamos por força deles, estamos igualmente pagos. E quando a morte vier libertar-nos da carne aqui deixamos tudo o que temos: o corpo, que vai decompor-se, a fortuna material, que vai arrastar outros pelos caminhos enganosos deste mundo. (...)

E se a fortuna colocou em nossas mãos a riqueza material, devemos acautelar-nos, ser muito previdentes! Porque, se usamos esse dinheiro só para nós e para os nossos, e não o usamos igualmente para fazer bem a outros que necessitam de ajuda, será grande a nossa desgraça no começo de outras vidas. A explicação é simples: não teremos acumulado o nosso tesouro no BANCO CELESTE. Tudo quanto tínhamos de bens terrenos perdemo-los ao morrer, já não os voltaremos a recuperar! Então, seremos pobres no mundo celeste para onde vamos. E quando voltarmos a renascer na Terra seremos mendigos, inadaptados à vida, indigentes. Temos de sofrer as consequências totais da nossa falta de previdência quando tínhamos a posse duma grande fortuna!

(...)

Mas aqueles que bem usaram a sua riqueza, em obras de piedade e de amor ao próximo, terão grande tesouro depositado no BANCO CELESTE. E, por isso, quando voltarem a esta vida irão nascer no seio de famílias ricas e terão novamente as grandes facilidades que o dinheiro concede. E por muito que dispendam os ricos em favor dos pobres, desde que o façam amorosamente, isto é, clarividentemente, impedindo que malgastem o dinheiro na satisfação de vícios e aconselhando sempre o melhor e mais seguro caminho, o que dispenderam não lhes fará falta, porque serão ajudados. Uma tal fortuna será abençoada! A que serve apenas para o uso do seu detentor será amaldiçoada! Ela criará ao seu possuidor, no mundo celeste e nas vidas futuras, as mais graves dificuldades que possamos imaginar.

“Para que o ensaio da vossa fé, muito mais precioso que o do ouro que perece, e que pelo fogo é ensaiado, se ache para louvor, e honra, e glória”1. Continuemos a parafrasear as palavras de Pedro, que são de grande profundidade simbólica e mística. Ele fala-nos do ensaio da nossa fé, querendo tornar-nos mais conscientes e firmes no concernente ao celeste. Ele já nos avisa de que a fé não se obtém por conselhos, nem por práticas devocionais, na realidade boas mas insuficientes. E compara o nascimento da fé, que chama ensaio (prova), com a depuração do ouro. (...)

Ele sabia, como de resto o sabiam os Nazarenos, que a fé e a ignorância são coisas incompatíveis. A fé ignorante é superstição, leva a crer em coisas absurdas; não nos torna fortes. Pelo contrário: enfraquece o nosso poder anímico, as forças da nossa alma, tolhendo-nos muitas vezes a acção benéfica. Mas a fé esclarecida, a fé que resulta do saber, essa eleva-nos constantemente até aos páramos sublimes do apoio divino. E traz-nos satisfação, forças anímicas, felicidade terrena e felicidade celeste. Tal fé leva-nos a buscar Deus e a dar toda a nossa ajuda a outros para que apressem o seu passo na senda evolutiva. É para isso que estamos neste mundo.

A fé tem de ser activa e não poderá exercer-se por dinheiro, nem por interesses mesquinhos! Só assim ela será mais preciosa que o ouro, que pode perecer desaparecer por qualquer forma, até por decomposição química! Mas a fé pura consciente, liberta da ignorância e dos terrenos objectivos, ficará para sempre como factor de felicidade. Ela servirá para nos louvar, para nos honrar e nos dar glória! E esta glória será o fim da nossa evolução, porque nessa altura estaremos cristificados, seremos Cristos!

(Resumo do texto publicado)

Francisco Marques Rodrigues

1 I Pe, 1, 5-7.




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