Filosofia

Destinos

Os nossos destinos são obra inteiramente nossa, exclusivamente nossa; nós os talhámos e eles por nós esperam; nós os semeámos e os havemos de colher!

Tudo quanto fazemos prepara, edifica o nosso destino, o nosso porvir. Por isso, destino e carácter são duas coisas tão intimamente ligadas entre si, que não podem ser separadas!

Cristo, na sua linguagem simbólica, disse a seu respeito:

“O que tu semeias, isso mesmo hás-de colher”.

E nestas palavras tão simples, o Mestre revela uma grande verdade.

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Ao entrar neste mundo por meio da forma física, feita do mais subtil pó da terra, em molde elaborado de éter, nós somos forçados a lutar contra as leis naturais, inteligentes, vivas e sempre prontas para nos dominarem. Pode parecer aos leitores que desconhecem a filosofia rosacruz que tais leis são impossíveis, pois não conhecem outras que não sejam as que o homem faz, escritas, impressas, inertes, servindo apenas e rigidamente para orientarem a nossa conduta na sociedade; as leis da Natureza são vivas, agem sobre nós, compelem-nos à acção e repelem-nos na sua actuação; arrastam-nos e podem elevar-nos às mais sublimes alturas.

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Quem não as viu ainda operando num ciclone? Numa tempestade que tudo destroi na sua passagem? Num terramoto ou num maremoto que tudo arrasam? E todavia elas regulam o tempo, produzem tudo quanto é necessário à nossa existência terrena. Não podemos dispensar a sua colaboração connosco, tão preciosas elas são.

Temos de nos acautelar com esses elementos para que não nos criem sérios obstáculos; e essa cautela resume-se em ordenar bem todos os nossos actos, fortalecer a nossa vontade para realizar os nossos planos, para que eles não lesem os direitos alheios e estejam dentro das nossas possibilidades, quer dizer, dentro do absolutamente justo. Porque, se os nossos pensamentos e actos preparam os nossos destinos, e todos desejamos somente o que é bom, somos forçadamente levados a só praticar acções justas.

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E, assim, teremos melhores destinos, um porvir mais calmo e feliz. Se, pelo contrário, nos deixarmos arrastar pelo pendor terreno, o nosso carácter não melhora, as nossas condições são confusas e penosas, criaremos então destinos sombrios e dolorosos.

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O destino colectivo abrange grandes grupos de pessoas, a aldeia, a cidade, a nação e muitas vezes grupos de nações, pois reúne todos aqueles egos que criaram pelos seus crimes, ao longo de vidas passadas, as mesmas condições de destino.

Nos destinos individuais achamos aqueles que vivem solitários, recusando a convivência com outros seres, ou tendo mesmo de suportar a sua recusa a ligarem-se com eles. O carácter destas pessoas está em perfeita harmonia com elas. Evitam, a seu modo, e de concordância com os seus desejos, as pessoas e as coisas, isolam-se, gozam ou sofrem sozinhos, o que lhes torna muito mais dura a existência. Todos os golpes do destino são suportados de qualquer modo, mas procurando sempre encobri-los no seu reduto espiritual, dispensando, sempre que possível, o auxílio de outras pessoas.

Nos destinos comuns tudo é diferente. Juntam-se dois indivíduos de sexo oposto e desta união resulta que automaticamente se ligam a eles todos os parentes de ambos, e os filhos, e os filhos destes, e os seus associados para o estabelecimento das famílias. Mas, ainda as coisas não ficam por aqui. A todos se unem os amigos, os inimigos, os vizinhos e os colegas de trabalho, queremos dizer, todas as pessoas que vivem tão perto que não podem deixar, de algum modo, de tomar parte nas suas alegrias e tristezas.

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E então vêm marido e mulher, ou são pais e filhos, irmãos, tios, primos, cunhados, sogros, vizinhos ou colegas, pois de vida em vida são-nos facultados meios de redimir o mau passado, de vencer o mal, de curar o ódio e o transformar em amor, em bem. Por isso nós somos testemunhas tantas vezes de cenas desagradáveis entre cônjuges, entre irmãos, cunhados, tios, sogros, pais e filhos, vizinhos ou colegas de trabalho. E quantas vezes ao esboçar-se um matrimónio, logo surgem discordâncias familiares. E tudo se faz no sentido de evitar o casamento, chegando mesmo ao uso de meios condenáveis. Se buscamos justificações sérias, não as encontramos. Tudo quanto se alega não ultrapassa o domínio do disparate e da má vontade injustificável. Mas se buscamos as ocultas causas de tão grande má vontade vamos achá-las em vidas passadas. É ódio velho, mas não cansado ainda.

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Muitas vezes o detestado matrimónio realiza-se, mesmo sem o acordo familiar, e a má vontade acaba por um apaziguamento do antigo ódio, agora já cansado. E então juntam-se e vão amar-se daí por diante. O ódio perdeu a sua cor rubra para tomar a rosada, e tudo terminou em bem. Venceram culpas do passado e puderam dar um passo em frente, para uma vida melhor, mais harmoniosa e perfeita.

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O ódio e o amor ligam-nos para sempre. Não merece a pena odiar, já que temos de curar as feridas do ódio com o mais puro amor. Portanto, cultivemos as melhores relações de amizade, se queremos ser felizes.

O amor é aquela famosa alquimia que muda a natureza dos metais pobres em puro ouro de lei. Simplesmente os metais pobres são os nossos instintos, nossos maiores inimigos; e o ouro é a nobreza do nosso carácter.

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São egos que em vidas passadas negaram aos seus genitores o respeito e o amor que lhes deviam. Em vez da gratidão por lhes terem dado o ser e os amparar na vida, para que triunfem, eles preferiram a ingratidão, a falta de respeito e de amor para com seus pais. Por isso agora nasceram sem o direito ao amor dos seus genitores e, para serem criados e educados, foi necessário recolhê-los em asilos. Assim, faltando-lhes a doce chama do amor dos pais, eles hão-de ansiar por ele. Hão-de desejá-lo, ardentemente, em vidas futuras.

O castigo dos nossos actos fica sempre connosco e surgem em qualquer altura das nossas vidas, mas certamente nas alturas próprias.

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No terramoto que destruiu Agadir, em 1960, foram retiradas dos escombros muitas vítimas algumas dias depois de estarem debaixo dos mesmos. Em que ansiedade terão vivido aqueles dias e noites entre os mortos, e sem esperança de serem salvos? Ninguém que não tenha passado por tão dura prova poderá avaliar tão horrorosa situação.

Todos os que necessitam de passar por uma prova grave e colectiva, vão juntar-se no local onde o desastre ou cataclismo há-de produzir-se. E aí terão, no momento apropriado, a sua execução.

Os nossos pensamentos e actos esperam sempre por nós e tecem os nossos destinos, elaboram o nosso próprio carácter. Por isso, quem desejar melhor destino, terá de modificar o seu carácter, porque só na medida em que nos aperfeiçoamos moralmente podemos modificar as nossas condições sombrias e dolorosas.

(Resumo do texto publicado)

Francisco Marques Rodrigues




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