Filosofia

Cristianismo – Que Futuro?1

Era uma vez um beija-flor que fugia de um incêndio, juntamente com todos os animais de uma floresta. Contudo, só o beija-flor fazia uma coisa diferente: apanhava gotas de água de um lago e atirava-as para o fogo. Um outro animal, intrigado, perguntou: beija-flor, achas que vais apagar o incêndio com essas gotas? Com certeza que não – respondeu o beija-flor – mas estou fazendo a minha parte.

(Retirado do Seminário ‘A Arte de Viver em Paz' – UNIPAZ PORTUGAL, Universidade Holística Internacional).

 

O Cristianismo desabrochou no pantanal de uma religião fortemente instituída, Rapidamente esticou as suas raízes e poderemos mesmo dizer que o começo da sua existência foi na qualidade de “mais uma seita herética do Judaísmo”.

E, naquele tempo, não foi a única heresia a proliferar numa Palestina ocupada pelos Romanos. Há muito que outros grupos de matriz judaica se haviam demarcado do judaísmo ortodoxo, nomeadamente os Essénios, os Ebionitas, os Nazarenos, os Hesicastas – só para citar alguns. Mas, do ponto de vista etimológico, Cristianismo provêm de Cristo, que, invariavelmente associamos de imediato a Jesus, espiritualmente evoluído, que trouxe uma nova doutrina e filosofia à humanidade. À humanidade – e não ao judaísmo, não obstante ter nascido no seio de uma comunidade judaica (e só assim teria tido a hipótese de ser ouvido por eles, dado o seu forte sentido de raça e nacionalismo protector).

Esta nova doutrina e filosofia aproximava agora o Homem de Deus-do Pai (recorde-se que Jesus se dirigia a Deus como “Pai”, Abba, e se afirmava, consequentemente, como seu Filho). Imagine-se as mentes formatadas e preconceituosas da classe sacerdotal que temia que esta aproximação entre o Homem e Deus lhes “roubasse a clientela” e lhes retirasse abruptamente o tapete das mordomias, do poder político, económico, social e mesmo cultural. Jesus e os ensinamentos desta nova religião tornaram-se potencialmente mais perniciosos – não lhes interessava que a divindade e o Homem estivessem tão intrinsecamente ligadas. O resto da história é conhecida de todos nós.

O Cristianismo começou como uma religião adoptada pelas classes mais desprotegidas; os seus fiéis sofreram perseguições ferozes por parte de alguns imperadores (Septímio Severo, Valeriano, Décio) e com a conversão ao cristianismo por parte do imperador Constantino – ainda que no final da sua vida – com a inauguração de Constantinopla (a 11 de Maio de 330) esta nova religião foi sendo adoptada por membros de famílias romanas abastadas, nomeadamente patrícios afortunados com riqueza fundiária/agrária. Não esqueçamos porém que as perseguições a outros grupos religiosos também faziam parte do panorama e da vida quotidiana (fundação dos Anacoretas no Egipto, por Macário; a crise Ariana).

Os Patrícios tornaram-se patronos de igrejas cristãs, os bispos em chefes do clero, enquanto iam surgindo novas interpretações teológicas; organizavam-se os concílios para debater matéria variada, nomeadamente definir grupos hereges, distinguir entre as doutrinas canónicas e as apócrifas (as discordantes com as regras estabelecidas).

Os gnósticos (de gnose = conhecimento) que defendiam o cristianismo primitivo foram sendo afastados e eliminados (pitagóricos, arianos, alquimistas). Em 325, com o Concílio de Niceia, todos os entendimentos básicos entre o Estado e a Igreja foram acordados, ou seja, numa articulação dos interesses económicos e políticos de ambos. A história do papado é um role de eventos lamentáveis e que não se coaduna com a doutrina e filosofia ensinada por Jesus.

Poderão perguntar: então, mas não houve papas que pautassem as suas vidas por decoro e honradez?

Claro que sim. Com moral exemplar e com personalidade de excepção.

Depois surgiu ainda o Grande Cisma do Ocidente, que se fez rechear de papas a triplicar e em simultâneo – em Roma (1378 a 1415), em Avinhão (1378 a 1423) e em Pisa (1409 a 1415), fornecendo assim uma imagem da igreja com ausência de coesão e pouco credível.

O século XVI na Europa foi marcado pelo movimento dito “protestante” de Lutero, dividindo uma vez mais a cristandade e tendo provocado perseguições e razias a estes novos grupos.

A Contra Reforma trouxe a Inquisição e o cheiro a carne humana queimada. Com o expansionismo Ibérico para o Atlântico, Indico e Pacífico, Portugal e Castela obtiveram a legitimação da igreja para “missionar” e converter os povos ao cristianismo – a quem chamavam de bárbaros – o que se tornou potencialmente difícil junto dos povos da Ásia Oriental, quer por o Islão aí se te instalado, quer pelo budismo/hinduísmo e religião popular acrescida do culto dos antepassados por parte dos Chineses e dos variados sincretismos religiosos dos Japoneses, acrescidos dos códigos de honra dos samurais, nomeadamente do bushido.

Hoje, especialmente no espaço Europeu, por vezes, o Cristianismo parece confundir-se correntemente com a igreja católica.

Parece-nos importante perspectivar algumas ideias de forma articulada:

1. As religiões têm sido, ao longo dos tempos, adequadas à ignorância dos homens.

2. Também se verifica que não têm cumprido com o propósito de unir a humanidade; antes pelo contrário.

3. Não parece vislumbrar-se no horizonte a tolerância entre religiões (mesmo as monoteístas).

4. As mudanças – nomeadamente a nível de mentalidades e de posturas – “vêm de dentro”, ou seja, provêm de um acto individual, um percurso único para cada ser humano e que está indubitavelmente associado à evolução espiritual.

5. “Missionar” os outros não parece ter produzido os efeitos que se esperava, já que os interesses subjacentes eram/são essencialmente de ordem política e cultural.

6. O futuro unirá a arte, a ciência e a religião para plena satisfação do indivíduo através das três vertentes: o coração (devoção e aspecto cerimonial da religião), a inteligência (satisfação no lado científico) e os sentidos (satisfação da parte estética da natureza humana, do gosto pelo belo).

7. Assim, o importante não é debater se o Cristianismo que conhecemos através da história, terá um futuro ou se ganhará no tabuleiro de xadrez das religiões; o importante é uma religião universal onde a relação Homem/Deus não se paute pelo medo, culpa, ideia do pecado, do inferno para as almas, mas sim pela fusão de ambos.

8. O percurso da alma para as teorias teológicas emperra nas engrenagens da lógica sustentando-se na imagem que a maioria dos humanos fazem de Deus – como se Ele fosse feito à imagem da nossa intolerância e crueldade. Privar a alma de evoluir, limitando-a a uma morte castradora e a uma eternidade na fila de espera para a salvação, parece ser algo tão aberrante como a teoria da salvação para os 144.000 que algumas religiões apregoam. Limitar a bondade, a misericórdia e o altruísmo de Deus só poderá partir de mentes formatadas por alguma espécie de pequenez que as impede de reflectir séria e pausadamente sobre a viabilidade de tais teorias. Acreditar nelas é conceber um deus à semelhança do homem e não o contrário.

9. Não parece ser relevante a nomenclatura desta ligação do Eu ao Divino que habita consigo mesmo – o importante é mesmo as normas de conduta, a postura perante a vida nesta caminhada evolutiva, tudo aquilo que podemos fazer em prole da nossa própria evolução, considerando que todos os que nos acompanham neste percurso deverão merecer o nosso respeito pelas suas escolhas. Isto é, a total aceitação do Outro e não esquecer que “missionar o outro”, em termos de perspectiva histórica não produziu efeitos – também não os produzirá actualmente.

10. Não é acidental a proliferação de literatura e doutrinas variadas que convidam o ser humano a experiências diferentes, nomeadamente a nível de prática de meditação, disciplinas ditas marciais (ioga, tai chi) que visam o equilíbrio, a alimentação vegetariana, a preocupação ecológica e o acto de reciclar, assim como a chamada de atenção para as leis da causa/efeito, o poder da palavra criadora, a visualização criativa, a física quântica, entre muitas outras. Obviamente há sempre que separar o trigo do joio!

11. A evolução espiritual parece ser o caminho do futuro. Poderá ser, obviamente, um processo longo e moroso, mas os grandes condutores da Humanidade estão encarregues de ajudar e de sensibilizar e a marcha da evolução dificilmente poderá ser travada. Quem acredita na evolução espiritual – e que poderá ser apontado como ingénuo ou mesmo demasiado optimista (já me aconteceram ser chamada de ambas) e tenta seguir os preceitos de uma existência digna, não costuma andar à procura de um sentido para a vida – já o encontrou! Para além disso, como disse Vladimir Ghika2. "“Amar a Deus é também uma maneira de não ter medo de nada”.

Se cada um de nós carregar uma gota de água, o fogo que assola a floresta poderá ser apagado. Devemos fazer a nossa parte.

Anabela Leandro

 

1 Excerto da prelecção feita no decorrer do ágape de Outubro de 2008.
2 Príncipe da Igreja Ortodoxa (1873-1954).




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