Filosofia

Crer no Senhor Jesus

A base da Religião Cristã repousa naquela frase de Pedro: “Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo”1.

Confiarão, na verdade, todas as organizações religiosas que se intitulam cristãs, no Divino Mestre?

Não necessitávamos formular esta pergunta. Sabemos que só raras pessoas confiam efectivamente a sua redenção a CRISTO. A grande maioria ainda se ilude, e ilude os seus semelhantes! Vive no erro e no erro acaba ao deixar este mundo, sem que tenha feito os esforços necessários para encontrar os meios de confiar verdadeiramente em CRISTO.

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Porque, confiar no Salvador é viver e praticar tudo quanto ELE nos ensinou. E viver com alegria e entusiasmo toda a doutrina difundida por ELE e pelos seus continuadores no mundo em que vivemos, é muito difícil! Poucos estarão dispostos para seguir o Mestre porque, para tão solene passo, nós temos de mudar a natureza interior radicalmente. E deixar os nossos velhos hábitos, aqueles vícios que tanto nos agradam e satisfazem a nossa carne, isso não é coisa fácil!

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Muito pouco, porque de vida em vida teimamos em caminhar no erro que se chama rotina. Assim, iremos aprendendo muito lentamente e apenas pelo sofrimento e pelas desilusões, retardando lamentavelmente o nosso aperfeiçoamento! Muitos confiam esta austera missão aos clérigos das várias religiões, convencidos de que eles poderão conduzi-los aos estados celestes por meio de orações que pagam! Mas tudo isto é pouco! A nossa própria inteligência nos diz, por muito pouco desenvolvida que seja, que não pode ser assim, e que temos de fazer um esforço pessoal e cada vez maior e mais persistente para compreender o grande mistério da vida e da morte; para nos aperfeiçoarmos ao máximo – porque sem perfeição nunca chegaremos ao Céu. E o Céu não pode conquistar-se com dinheiro, mas unicamente pela reforma dos nossos maus hábitos e pelo serviço que desinteressadamente façamos para outros, isto é, pela bondade e pela perfeição.

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Ir à Igreja orar e ouvir o que nos dizem os mentores religiosos não é mau! Mas, algum dia perceberemos que os mentores eclesiásticos não possuem a varinha de condão que por milagroso sortilégio nos levará para o Céu. E então sentiremos a necessidade imperiosa de procurar por todos os meios o apoio indispensável para obter melhor compreensão do tal mistério da vida e da morte em que nos vemos envolvidos e indestrutivelmente ligados. Iremos então, por toda a parte, buscar a luz e o conhecimento que nos esclareça a consciência e fortaleça a alma. Estaremos então a “endireitar a vereda” da nossa evolução. E para isso teremos de abandonar a rotina que nos impede toda a perfeição e cumprimento do conselho do notável Nazareno que ficou na História Sagrada com o nome de João Baptista, primo de Jesus2.

“Endireitar as nossas veredas” é fazer os esforços necessários para sermos cada vez mais justos. Só na medida em que aperfeiçoamos o nosso modo de ser podemos fazer desabrochar as faculdades anímicas, fomentar o nosso crescimento espiritual, cristificarmo-nos. E Jesus deu-nos as directrizes necessárias para esse aperfeiçoamento. Nós e os nossos mentores religiosos é que temos teimado em seguir a vida ao sabor dos nossos instintos animalescos que nos levam sempre a ceder ao que é vicioso e mau, e que até já foi hábito dos nossos antepassados. É a rotina! Mas a rotina apoia-se na ignorância dos mistérios, e isso embaraça todo o nosso progresso moral e espiritual.

Os mentores espirituais e os seus pupilos cometem um erro gravíssimo baseando todo o esforço necessário para evoluir em fórmulas vazias!

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“Crer no Senhor Jesus” é aceitar de alma e coração a sua doutrina e segui-la amorosamente! E para viver essa doutrina é necessário fazer porfiado esforço para orientar todas as nossas acções dentro dessa mesma doutrina!

“Crer no Senhor Jesus” é adoptar os seus ensinamentos como padrão para todos os nossos hábitos. E se assim não fazemos, de que nos valerão, ao termo desta vida, os artifícios mentirosos em que vivemos?

Evitemos a hipocrisia farisaica, tão condenada por CRISTO, a vaidade e o orgulho, que só podem impedir o nosso avanço na senda evolutiva. E assim é que estaremos endireitando as veredas que levam à Perfeição, a DEUS.

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O que Pedro quis dizer foi precisamente que, para encontrar a redenção do mau passado, era necessário abandonar o ramerrão e substituir os antigos e viciosos hábitos por outros moldados nos ensinamentos cristãos.

Fé sem obras é coisa morta, não tem valor algum! O que na verdade tem algum valimento é o esforço que se faz para mudar a nossa natureza interior, de modo que o feio que temos em nós se transforme em beleza; e o que trazemos connosco de maldade e nos torna sombria a vida se torne bondoso e se faça brilhante e resplandeça gloriosamente!

(Resumo do texto publicado)

Francisco Marques Rodrigues

1 Actos dos Apóstolos, Cap. XVI, 31.
2 Mateus, Cap. III, 3.




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