Filosofia

O Condestável D. Nuno Álvares Pereira

e as Escolas de Iniciação Cristã


Numa altura em que tanto se fala da soberania de Portugal na Europa, cabe perfeitamente bem nas colunas desta Revista uma referência ao Condestável D. NUNO ÁLVARES PEREIRA e às Ordens ou Escolas de iniciação nos mistérios do Cristianismo. Isto porque toda a nossa actuação se faz no sentido de avivar o sentimento cristão dos primitivos tempos, de que fomos afastados lamentavelmente pelos maus condutores espirituais, que mudaram totalmente e desfiguraram a salutar doutrina trazida ao Mundo por CRISTO.

(...)

Nós somos cristãos ao modo primitivo, simples, despido de artifícios. E, por isso, temos pelos mistérios Cristãos um altíssimo apreço. Tudo fazemos para explicá-los e, na medida possível, difundir as verdades neles contidas. Desta maneira podemos contribuir com o nosso conhecimento para uma obra, mais ampla e mais firme, a favor de todos aqueles que já amadureceram tanto que necessitam de mais luz espiritual.

(...)

Entre as ordens antigas, que floresceram pela Idade Média, algumas houve, na Península Ibérica, dedicadas totalmente ao misticismo Cristão. É o que nós seguimos ainda hoje, embora ao longo de linhas mais arejadas, despidas de todo o fanatismo religioso. É ele o eterno inimigo da luz fecundante que sobre a Terra foi e continua a ser irradiada por CRISTO, através da sua maravilhosa Mensagem despertadora das consciências adormecidas. Destacaremos duas destas Ordens pelas suas características especiais: os Cavaleiros da Távola Redonda e os Cavaleiros do Santo Graal. Uma e outra não albergavam no seu seio ociosos nem vagabundos fugidos ao trabalho dignificante. Apenas era admitida aquela fina flor que sentia dentro dos seus corações a chama viva do IDEAL CRISTÃO.

(...)

Os Cavaleiros da Távola Redonda e os Cavaleiros do Graal existiram para dar apoio, ao mesmo tempo, aos divinos guias espirituais e aos guias terrenos, isto é, os monarcas. É que, nessa altura, ainda se fazia questão de seguir os ensinamentos ocultos do Cristianismo por se reconhecer residir neles uma grande força moral que deveria ser utilizada para melhor contacto entre o Céu e a Terra, entre o Poder Divino e o terreno. Para tanto, os cavaleiros das referidas ordens buscavam estados de grande perfectibilidade. Eles sabiam que os Grandes Seres espirituais não se aproximam de qualquer indivíduo, mas apenas daquele, ou daqueles, que possuem a limpeza moral necessária para uma tal honra. A respeito das aludidas ordens místicas disse MAX HEINDEL, a maior autoridade moderna sobre os mistérios e, particularmente, os ensinamentos secretos do cristianismo:

“A história do Santo Graal é um dos mitos empregados pelos Grandes Guias da Humanidade para sugerir as verdades espirituais sob a forma de símbolos que, naquele tempo teriam sido incompreendidos pelo nosso intelecto infantil.

(...)

No norte de Espanha existiu o mistério do Santo Graal, que por largo tempo foi administrado por um grupo de santos cavaleiros que viviam recolhidos no Castelo de Montsalvat. A sua finalidade era a de proclamar à Humanidade grandes verdades espirituais, de maneira que as pudesse entender, apresentando em alegorias ou histórias o que não se podia dar logo directamente ao intelecto”1.

Nos tempos medievais, os trovadores recitavam muitas versões desta lenda do Santo Graal. Talvez a mais famosa de todas seja a de WOLFRAM VON ESCHENBACH, na qual o primeiro grande artista musical do século XIX, RICARDO WAGNER2, moldou o seu famosíssimo drama “PARSIFAL”.

(...)

Depois, os mesmos cavaleiros receberam também a lança que fora utilizada para trespassar o coração do Divino Mestre, e o copo ou taça, o Graal, em que foi recolhido o sangue que jorrou da ferida.

Os relatos do Santo Graal e da Távola Redonda são, actualmente, considerados meras superstições. É o que, de resto, se faz com tudo quanto não pode ser demonstrado cientificamente. Por isso mesmo os relatos do Graal e da Távola Redonda têm sido considerados indignos de crédito”3.

NUNO ÁLVARES PEREIRA era Cavaleiro do Santo Graal, entre os quais se graduou, motivo porque não desejava casar-se, pois esse facto era considerado como quebrantador total dos votos de pureza cristã. Estes cavaleiros da fé cristã procuravam consagrar todo o seu valor ao serviço de CRISTO; e assim como JESUS não se casou nem manifestou pendor para o trato sexual, assim também eles, desconhecendo o mistério do sexo, procuravam renunciar ao casamento. Estavam convictos de que todo o seu vigor deveria ser consumido em holocausto ao Salvador, guardando, no coração e no cérebro, todo o seu poder, para usá-lo em favor da Humanidade.

Esta ideia tem um sentido verdadeiro e muito importante. Mas nem todos podem mudar a natureza do instinto sexual. Por tal motivo, S. Paulo, o grande e inolvidável esteio da Igreja Cristã e seu estruturador, pôs de sobreaviso os seus sacerdotes, do mais alto grau ao mais baixo. Fez-lhes saber que seria bom ficarem solteiros, como ele mesmo, para se poderem consagrar à vida errante que naquele tempo os apóstolos haviam de fazer, de terra em terra. E também para que a força, que se concentra nos órgãos de reprodução, fosse transformada no cérebro e no coração para ser usada no serviço do Mestre Divino. Mas, reconhecendo a fragilidade do barro humano, da qual ele mesmo se queixava, advertia os seus cooperadores de que mais valia casarem-se, do que abrasarem-se4.

(...)

Atacar uma nação, sem causa justa, é desafiar a repulsa daquele Grande Ser que tem à sua guarda essa nação. Nestas circunstâncias, a punição virá em termos severos, como foram os que D. NUNO ÁLVARES PEREIRA deu aos atrevidos e ambiciosos invasores.

Quando um país é invadido injustamente, o ARCANJO que tem a nação à sua guarda e orientação envolve o chefe das operações militares repressoras e os seus soldados e lança-os com tal ímpeto sobre os invasores que os esmaga ou põe-nos em debandada. Infunde-lhes um terror pânico e desorganização tal que são vencidos e castigados pela sua ousadia e irreverência para com os direitos e liberdade dos seus semelhantes.

(...)

Aqui prestamos ao grande místico e ocultista cristão que foi NUNO ÁLVARES PEREIRA, e ao seu alto valor espiritual, a nossa humilde homenagem. Todo o PORTUGAL lhe deve muito, pelo importante papel que desempenhou na sua consolidação, a que o torna digno de ser lembrado sempre por todos os portugueses.

(Resumo do texto publicado)

Francisco Marques Rodrigues

 

1 Max Heindel, Cristianismo Rosacruz, Cap.XI, XVII.
2 RICARDO WAGNER era iniciado Rosacruz.
3 Max Heindel Conceito Rosacruz do Cosmo, 4ª ed., p. 322.
4 I Cor., Cap. VII; Rom., Cap. VII; I Tim., Cap. III; Tito, Cap. I; Heb., Cap. XIII.




[ Índice ]