Filosofia

O Colapso de Sociedades Humanas

Há nas ciências antropológicas uma acumulação de casos por resolver. São domínios fascinantes em que se têm acumulado perguntas sem resposta, enigmas aparentemente indecifráveis no domínio da pré-história e da vida social de grupos humanos antes das civilizações históricas nossas conhecidas. Determinados achados, a perfeição de certos vestígios teoricamente evoluídos e irrecusavelmente muito antigos, voltam a pôr seriamente a hipótese de terem existido povos altamente desenvolvidos, cuja origem se desconhece e cujo desaparecimento súbito ninguém consegue explicar.

Ficaremos, em rápido apontamento, por um caso idêntico relacionado com os descobrimentos portugueses.

Os mapas de Piri Reis1, do Império Otomano, no século XVI, foram desenhados em 1513. Malil Edhem descobri-os em Istambul, no ano de 1929, no Museu Topkapi. São dois fragmentos de mapas-múndi. Piri Reis foi um cartógrafo cuidadoso. Falava diversas línguas, o português entre elas. Um mapa, que se diz ter sido desenhado por Cristóvão Colombo e que foi obtido graças à captura de um membro da tripulação do célebre navegador, ajudou-o a completar o seu trabalho de cartografia. Nos dois fragmentos, desenhados em pergaminho colorido, pode ver-se o desenho das costas atlânticas americanas, europeias, africanas, árcticas e antárcticas. Também reproduzem retratos de soberanos de Portugal, de Marrocos e da Guiné, e algumas espécies animais da América e de África.

O que nos deixa perplexos é o facto de esses mapas representarem a configuração do litoral da região Antárctica e da Gronelândia tal como seriam visíveis antes da glaciação dos pólos. Definem não só os recortes geográficos mas também o relevo oculto por debaixo da espessa camada de gelo que actualmente os recobre. Só modernamente, no século XX, e com recurso aos actuais meios informáticos, às modernas técnicas com auxílio da aviação, foi possível comprovar essa realidade escondida por baixo de uns três mil metros de gelo! Poderíamos, por conseguinte, admitir que os autores desconhecidos das cartas náuticas desenhadas ente 1513 e 1528 tinham um grau desconhecimento semelhante ao que actualmente possuímos. Ou, o que ainda é mais extraordinário, que elas tivessem sido preparadas antes do período glaciar. Segundo a maior parte dos estudiosos, o período de glaciação dos pólos, ocorreu há cerca de nove mil anos atrás.

Ora, há uns dez mil anos, segundo nos ensina a História, existiam os homens de Cro-Magnon. Foram os autores das pinturas das grutas de Lascaux, na Dordonha, em França embora desconhecessem ainda a maneira de trabalhar os metais, de cultivar a terra e domesticar os animais. Segundo uma regra conhecida, a arte sem fins utilitários – por exemplo, sem relação com a magia – e com a perfeição das pinturas de Lascaux, assinala o momento em que os seus criadores dão origem a grandes invenções: máquinas agrícolas, cidades, armas, etc. Segundo este ponto de vista, os homens de Lascaux teriam conseguido descobrir, cerca de um século mais tarde, a fusão dos metais e a construção de cidades. E mil anos depois teriam certamente sido capazes de construir carros de transporte e até inventado a imprensa. Mas, neste caso, não aconteceu nada disso. A população de Lascaux, além de não ter inventado nada, também desapareceu!

A maior parte das vezes as ruínas destas sociedades desaparecidas exercem sobre todos nós um fascínio romântico. Como pode uma sociedade que edificou tais maravilhas desaparecer, extinguir-se, ou simplesmente desaparecer, abandonando as suas criações?

A ascensão e rápido declínio das sociedades são um fenómeno recorrente em diversas latitudes. O modelo de sociedade criado pelos nórdicos da Gronelândia desapareceu depois de uns 450 anos. A expedição da Kon-Tiki, de Thor Heyerdahl à Ilha da Páscoa deu origem a inúmeras especulações sobre as causas do fim da sociedade que esculpiu as suas famosas estátuas2.

Alguns autores suspeitam que estes misteriosos desaparecimentos se devem a um conjunto de diversos factores: variações climáticas; crescimento populacional excessivo e consequentes guerras entre pessoas que lutam pelos mesmos recursos, etc.. Também há quem aponte o dedo aos exploradores e colonizadores. Mas há imensos casos em que estes genocídios não resultam da fúria incontrolada de indivíduos consumidos por ódios tribais – mas da estratégia deliberada das suas próprias elites para se manterem no poder.

Há certos pontos do ciclo histórico-espiritual humano em que determinados indivíduos ou sociedades, convertidos à mediocridade, se limitam a assistir passivamente à degenerescência das suas camadas vital e espiritual. Quando esta decadência atinge as hierarquias, pode conduzir a uma cada vez mais generalizada inobservância de certas regras e práticas fundamentais, o que leva à desordem progressiva, ao caos colectivo e ao nascimento de egos de crescente inferioridade. Tudo isto pode desembocar facilmente na extinção, por via de uma homogeneização compulsiva de padrões culturais e étnicos.

Mas também existem, neste mesmo percurso, ensaios de um tipo humano carregado de possibilidades evolutivas, capaz de vencer os desafios da selecção natural, em que os mundos social e material funcionam como obstáculos selectivos. Seguindo esta linha evolutiva, o homem já desperto para a construção de um ideal pode retornar ao seu “ser” autêntico, a uma vida ao nível do seu plano espiritual. Conquistará assim, no futuro, uma harmonia entre os diversos níveis do seu ser e uma quase generalizada harmonia entre ele, o seu semelhante e o meio ambiente gerado pelo espírito.

Então, os seres humanos incompatibilizados serão outra minoria retardatária que também se irá extinguindo. Mas, até lá, o problema do homem persistirá: o de ser representante ainda maioritário de tipos humanos que poderão ser excluídos pelo projecto evolutivo da espécie3.

Ariel

 

1 Piri Ibn Haji Mehemed. Reis: Almirante, em turco.
2 Cf. Jared Diamond, Colapso, Ascensão e Queda das Sociedade Humanas, Gradiva, 2009.
3 Max Heindel, Conceito Rosacruz do Cosmo, 4ª ed., Lxª 2005, pp 213, 268, 316.




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