Filosofia

A Clarividência

A clarividência é a capacidade para perceber as realidades dos planos internos, os seus habitantes e acontecimentos. “Clarividência” quer dizer “ver claro”. Actua por meio dos “olhos da alma”. Fornece informações confiáveis e apoia-se na intuição. Diferencia-se da simples “vidência” que se limita à simples captação de reflexos de factos subtis, muitas vezes sem nitidez acerca do que representam. No ser humano, a vidência é um resquício do reino animal. O despertar da capacidade de clarividência, assim como o da audição interna, dá-se com naturalidade nos que seguem a vida interior. E esta capacidade aproxima-os de estados superiores de consciência. A clarividência permite investigar os pontos de ligação entre o mundo físico e os mundos etéreos.

Poderá então perguntar-se porque são invisíveis, para a maioria das pessoas, os mundos espirituais. Responderemos:

– Estes mundos são invisíveis porque a grande maioria dos seres humanos tem adormecidas as faculdades espirituais de percepção do que se passa nos mundos invisíveis ou do espírito. Por isso desconhece tais mundos e o que neles se passa.

– E, pelo facto de a grande maioria dos seres humanos não ter ainda em actividade os sentidos de percepção espiritual, pode concluir-se, com justiça e verdade, que os mundos espirituais não existem?

– E claro que não. Porque também os cegos estão privados de ver a luz e a cor, assim como tudo quanto os cerca, e nem por isso podem negar a sua existência.

– De que podemos, então, ter a certeza?

– De que, se os cegos pudessem obter a vista, veriam a luz, a cor e tudo quanto os rodeia. De igual modo, se os sentidos superiores de percepção espiritual dos que se acham cegos para os mundos espirituais despertassem – e isto é possível seguindo métodos apropriados – poderiam ver esses mundos superiores ou invisíveis.

– Quando se consegue esta visão pode-se conhecer tudo quanto existe nos outros mundos?

– Não! Sucede o mesmo que aconteceria ao cego a quem fosse restituída a visão: não pode, no mesmo instante, conhecer tudo quanto existe neste mundo terreno. Terá que exercitar-se gradualmente para obter o conhecimento. Por isso, as pessoas que possam ter a rara felicidade que resulta do despertamento da visão espiritual terão de exercitar-se para o conhecimento do que constitui esses mundos espirituais, invisíveis aos instrumentos da visão física.

– É possível o erro ao apreciar o que vemos nesses mundos ocultos à visão terrena?

– Sim, é. E possível o erro na apreciação do que vemos nesses mundos. E para o evitar necessitamos de fazer o seu estudo minuciosamente. Então conseguiremos, com maior facilidade que a que temos aqui, adquirir conhecimentos de tais mundos. Mas necessitamos de maior rigor na observação do que no mundo terreno.

– Como poderemos saber se as observações feitas por outros são correctas?

– Os clarividentes devem estar muito bem exercitados antes que as suas observações possam ter algum valor; e, quanto mais conscientes estiverem desses mundos, tanto mais simples e modestos se mostrarão ao falar do que vêem. Serão mais complacentes para com as versões dos demais, pois percebem quanto há que aprender e quão pouco pode abarcar um só investigador acerca de todos os incidentes e dos numerosos pormenores de toda esta investigação em conjunto.

É justificada a diversidade de versões acerca de um só assunto?

– Sim. E porque estas versões diferem umas das outras, pessoas superficiais crêem ser esta uma razão contra a existência dos chamados Mundos Superiores. Asseveram mesmo que, se esses planos de vida existissem, os que podem chegar a velos deveriam dar idênticas versões ou descrições dos mesmos. É um ponto de vista muito errado.

– Pode explicar porquê? Há alguma falta de lógica neste conceito?

– Há! Vamos ver. Se um jornal envia vinte repórteres a uma cidade para que façam uma crónica das suas impressões acerca da mesma nem dois destes relatos serão exactamente iguais. Cada um deles escreverá usando o seu próprio ponto de vista a respeito do que observar. E será esse facto um argumento contra a existência da cidade que os repórteres viram de maneiras diferentes?

Certamente que não!

– Então, a que atribuiremos estas divergências?

– Ao desenvolvimento intelectual de cada um dos cronistas. Todos nós vemos as coisas em harmonia com a luz ou cultura que temos. Assim, os jornalistas verão a mesma cidade sob aspectos diferentes. Mas tais crónicas, longe de lançarem a confusão prejudicial ao conjunto, darão uma visão mais ampla e perfeita da cidade, tornando esse trabalho de conjunto muito superior ao de um só jornalista.

– E nos mundos invisíveis sucede o mesmo que no caso anterior?

– Sim, é claro. Pois segundo um antigo aforismo ocultista, “como é em cima, é em baixo; como é em baixo, é em cima”. Cada um tem o seu modo de ver e fará uma observação à sua maneira.

O relato que um fizer poderá ser muito diferente do trabalho de qualquer outro, mas todos serão igualmente verdadeiros sob pontos de vista de cada um dos observadores. E é por esta razão que a VERDADE há-de ser sempre relativa ao estado evolutivo de cada um de nós.




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