Filosofia

Subiu ao Céu

Todos estamos habituados a usar o calendário de matriz cristã que faz coincidir a Páscoa com os últimos momentos da vida de Jesus. Os primeiros cristãos seguiam o calendário judaico, que é lunar. O calendário judaico foi estabelecido de tal forma que as festas religiosas coincidem com uma estação do ano em particular. Mas o nosso calendário é de raiz solar. Todavia, em 325, o Concílio de Niceia define que a Páscoa devia ser celebrada no primeiro Domingo a seguir à primeira lua cheia do Equinócio da Primavera. Se a lua cheia coincidir com o domingo, então a Páscoa celebra-se no domingo seguinte.

A festa da Páscoa é uma antiga celebração bíblica, anterior ao cristianismo. É um dos remotos acontecimentos do ciclo agrário que, organizados com chave religiosa, estruturaram, durante séculos, a vida do Israel Antigo. A actual festa da Páscoa resulta da associação de duas festas diferentes. Uma, a dos pastores, a Páscoa do cordeiro, em que o rito principal tinha por base o sacrifício de um cordeiro. Outra, a dos agricultores, que tinha no rito do pão sem fermento o seu ponto alto. Os dois ritos uniram-se, talvez no tempo de Moisés (c. 1250 a.C.). O cristianismo transformou a Páscoa num memorial da Ceia de Jesus, considerando-o o cordeiro pascal.

Por meio dos ciclos agrários, a Páscoa está associada ao movimento dos corpos celestes e, em particular, ao acontecimento que denominamos Equinócio da Primavera

A “crucificação” ocorreu quando o Sol se encontrava num ponto dos céus em que a eclíptica se cruza com o equador, formando uma cruz. A “ressurreição” tem lugar quando o Sol cruza o equador depois de se erguer no Oriente (ou Este). E celebra-se na época do ano em que toda a Natureza desperta à nossa volta1. Os textos mais antigos do Novo Testamento falam da glorificação de Jesus em termos de “ascensão”, de “elevação ao céu” ou “arrebatamento para o Pai” (Lc 24,51; Mc 16,19; Jo 20,17), e identificam-na com a “ressurreição”.

No hino cristológico da carta aos Filipenses 2, 8-11, que é pré-paulino, a ressurreição, ascensão e glorificação são vistos como experiências simultâneas. Só os textos mais tardios é que tentam situar a “ascensão” num quadro cronológico. Destes, apenas os Actos referem 40 dias após a Páscoa. E mencionam até um lugar determinado: o Jardim das Oliveiras (Act 1,3; 1,9; 1, 11-12; 13,31). A ascensão não deve, pois, ficar separada do processo de ressurreição. Vamos ver o que se deve entender por ressurreição-glorificação-ascenção.

 

1 Ressurreição

A morte é um acontecimento que não atinge a pessoa no seu todo. Apenas o veículo físico. Depois da morte, os veículos superiores abandonam o corpo físico2 “que foi o maior obstáculo ao seu poder espiritual, o poder volta-lhe de novo, até certo grau”3. Faz-se a visão do filme da vida terminada e, uma vez concluído, o espírito situa-se naquele plano de consciência que denominamos “Mundo do Desejo”. Seguem-se outras experiências que o conduzirão até ao segundo Céu, com uma actividade intensa4. A espiritualização segue um movimento espiralado e de progressão contínua, num processo de renascimentos sucessivos até alcançar a plena espiritualização.

É este complexo processo assunção, potenciação e plenificação da vida pessoal-espiritual humana, que separa a morte de outro renascimento, que se denomina “ressurreição”. É um processo dinâmico. Assimilam-se e plenificam-se todas as experiências passadas “para que nenhum esforço se faça em vão”5. É comum a todos os seres humanos. A riqueza do trabalho no segundo Céu dependerá do modo como se viveu a lei básica da evolução, que é a do serviço: emergência pessoal em convergência comunitária.

A pessoa ressuscitada não perde a sua identidade e originalidade pessoais. Nem a sua vida fica desligada totalmente da vida anterior. Pelo contrário. Após a morte, o espírito desencarnado recupera em grande parte a plenitude de comunhão universal humano-divina. O ressuscitado não é outra pessoa: é ele mesmo, embora noutra situação. Em Mt 13, 53 diz-se que os justos brilharão como o Sol. O evangelista não faz nenhuma conotação espácio-temporal ou física da situação dos ressuscitados. O corpo do ressuscitado é a configuração futura da pessoa humana quando, no processo de espiritualização, já não tiver necessidade de um corpo físico6. Lembremo-nos das condições no futuro Período de Júpiter.

Não podemos entender a “ressurreição” como restauração biológica. Não é a reanimação do cadáver. O biológico pertence à fase terrena. Paulo acentua a condição inteiramente pneumática, quer dizer, espiritual, dos ressuscitados. Fala-nos da ressurreição do “corpo” (soma, em grego), e não da “carne” (sarx). Ele distingue o corpo físico do corpo espiritual: “semeia-se corpo natural e ressuscita-se corpo espiritual. Se há corpo natural, também o há espiritual... (1 Cor 15, 14-47)”7. E depois de argumentar com o pensamento helénico sobre o assunto afirma: “a carne e o sangue não podem participar do reino de Deus” (1 Cor 15,50). O apóstolo refere-se, claramente, a um corpo pneumático, quer dizer, não biológico. De facto, a restauração orgânica e biológica do corpo não correspondem ao conceito bíblico. O corpo da ressurreição é um corpo etéreo. A corporalidade do espírito depois da morte, uma vez liberto do corpo vital, é constituída pelos veículos superiores: o corpo de desejos e a mente. É preciso superar a absurda concepção fisicista tradicional da ressurreição.

“Jesus já alcançara as mais elevadas vibrações do Espírito de Vida e passou por várias iniciações para obter o necessário efeito sobre o corpo vital”8. A sua originalidade, face aos demais homens, está no facto de, na pessoa de Jesus, nos depararmos com alguém cujas possibilidades divinas já existentes no homem chegaram ao seu mais cabal desenvolvimento. Foi capaz de estabelecer uma interacção directa entre a sua interioridade pessoal-espiritual humana e a interioridade pessoal do Logos Solar.

Significa isto, por outras palavras, que a interioridade humana de Jesus foi a primeira, e até agora a única, a ser plenamente assumida e potenciada, numa linha de continuidade, pela própria interioridade de Cristo. Esta plenitude consumou-se no momento do Baptismo. Por isso o dizer-se que, até agora, Cristo “só teve uma única incarnação”9.

Devemos ter em conta que esta linha de continuidade, potenciadora e plenificante, não anula nem substitui a interioridade humana de Jesus. O maior assume o menor sem o anular nem substituir.

Pela sua intervenção, desde o início do processo Criador, Cristo possibilita a divinização de toda a humanidade. De facto, Cristo é-nos mais interior que nós mesmos. Não O podemos encontrar senão a partir de dentro. Cada pessoa é igualmente habitada, e interiormente potenciada, por Cristo. A possibilidade natural dessa “incarnação” do Logos Solar em cada ser humano há-de ser, em devido tempo, a assunção, plenificação e potenciação da sua vida interior individual na vida comunitária da humanidade e na do Pai tal como em Jesus.

De facto, Cristo encontra-se connosco na medida em que nos encontramos com os outros. Jesus viveu esta dinâmica do “connosco” numa relação fraternal. À medida que se abria amorosamente aos outros tanto mais a sua interioridade humana se “abandonava, gostosa e voluntariamente” à assunção, potenciação e dinamização pela interioridade do Cristo10.

A incarnação não pode ser vista como é a fusão de duas entidades. É uma experiência potenciadora.

Tendo Jesus penetrado nas coordenadas da comunhão total, permitiu ao Logos a possibilidade de se exprimir em grandeza humana e aparecer, isto é, ensinar, como um homem entre os homens11.

Ao atingir assim o corpo total da humanidade, que é um todo orgânico e dinâmico, através da mediação de Jesus, “Cristo é capaz de (...) compreender tão amplamente a situação e as carências da humanidade”12.

Jesus tinha de nascer, por isso, num corpo físico. Cristo precisava expressar-se através da interioridade pessoal-espiritual humana de Jesus para que pudesse superar as coordenadas individualizantes de ordem biológica, psíquica, cultural, rácica, espácio-temporal, etc., daquele povo13.

Já vimos, noutra ocasião, que a interioridade humana é uma estrutura relacional. Isto é verdade tanto em relação à vida humana como à de Cristo. A intervenção de Cristo situa-se ao nível duma presença dialogante. Nesta dinâmica de reciprocidade o homem está em transcendência. Cristo é igualmente transcendente. Actua em dinâmica relacional e não se agarra em nenhum ponto do corpo do Universo ou do corpo humano. A sua presença é percebida pelo homem em forma de iluminação. Jamais se impõe. Esta presença não é posse. A posse ou manipulação é o contrário de transcendência e sinónimo de possessão. A interioridade pessoal humana de Jesus e a interioridade pessoal de Cristo formaram uma unidade funcional. Ao nível físico, a morte surge como ponto final do ciclo biológico.

Cristo não actua de modo arbitrário e imediato nos acontecimentos físicos. Sejam quais forem, têm as suas leis próprias. A sua presença não se situa ao nível da posse ou causalidade física. É uma presença possibilitante, não determinante, para a realização dos possíveis inscritos nos átomos-sementes humanos. A morte do corpo físico de Jesus enquadra-se no contexto geral dos processos biológicos. Depois de se libertar das coordenadas limitativas de ordem espácio-temporal associadas ao corpo físico, através da morte, é que Jesus foi plenamente integrado na comunhão universal e inteiramente dinamizado, assumido, potenciado e plenificado por Cristo. Os átomos-sementes foram claramente enriquecidos por integrarem a unidade funcional a que nos referimos, decorrentes do facto de Jesus ser o mediador entre Cristo e a humanidade. Depois desse momento desempenharam as suas funções naturais, como em qualquer outra pessoa.

Neste sentido pode dizer-se que, efectivamente, só “depois da morte do corpo denso de Cristo-Jesus os átomos-sementes foram devolvidos a seu primitivo dono, Jesus”14, sem outras influências.

A intervenção de Cristo, “incapaz de construir para Si um corpo vital e um corpo denso”, não pôde acontecer no sentido de assumir a posse ou determinar a realização dos possíveis inscritos nos átomos-sementes. Uns realizam-se, outros não. Mas sempre que se realiza um possível, novo património de possibilidades se inscreve no tecido do átomo-semente. Os possíveis actuais resultam de concretizações pessoais anteriores; das concretizações actuais dependem os possíveis futuros. É o fundamento da epigénese. Cristo não determina os efeitos das causas existentes. A relação causa-efeito é autónoma.

Mas a ressurreição não pode ser entendida como realidade separada da ascensão.

Que sentido terá para o rosacruciano a narrativa da “ascensão”?

É o que vamos ver no próximo número.

Francisco Coelho

 

Notas

1 Mensagem da Páscoa, in “Revista Rosacruz”, n 383, Janeiro-Fevereiro-Março de 2007.
2 Max Heindel, Conceito Rosacruz do Cosmo, F.R.P., 2005, p. 80.
3 Id., ob. cit., p. 84.
4 Id., ob. cit., p. 85-104.
5 Id., ob. cit., p. 428.
6 Id., ob. cit., p. 193.
7 Cf. Augusta Heindel, O Outro Lado da Vida, F.R.P., p. 5.
8 Max Heindel, Conceito Rosacruz do Cosmo, id. p. 301.
9 Id, ob. cit., p, 297; id. Cristianismo Rosacruz, Cap.15; The Rosicrucian Fellowship, s/d, p. 314.
10 Max Heindel, Cristianismo Rosacruz, The Rosicrucian Fellowship, s/d, p. 317.
11 Id., Conceito Rosacruz do Cosmo, p. 301-302.
12 Id., ob. cit., p. 301.
13 Id., ob. cit., pp 301-302.
14 Id., ob. Cit., p. 322.




[ Índice ]