Filosofia

A Arte – Expressão Criadora do Homem

Todas as actividades do homem podem ser divididas em três categorias, a saber: Ciência, Religião e Arte. A mais alta aspiração do homem é obter o florescimento delas. Na escala da evolução, o homem está situado entre os reinos angélico e animal. Deus fez o homem “um pouco menor que os anjos”; e Ele deu-nos domínio sobre o Reino Animal. Considerando a existência destes três factores, Ciência, Religião e Arte, teremos definida e compreendida qual a principal diferença entre o homem e o animal. Nem a ciência, nem a Religião, nem a Arte são necessárias aos animais na presente fase do seu desenvolvimento.

Na actualidade, é a Ciência, com as suas aquisições em matéria de conhecimentos físicos e concretos, que tem proeminência. A Religião também está atravessando um grande despertar. Porém, agora desejamos, simplesmente, considerar as Artes.

Não nos é possível traçar linhas claras de demarcação ao classificar, desta maneira, as actividades do homem, porque a Ciência está ligada à Arte, e a Arte caminha de mãos dadas com a Religião, quando esta trata de revelar a divindade do nosso ser.

Max Heindel chama à Ciência, à Arte, e à Religião uma trindade na Unidade e sabemos que a separação, em classificações diferentes, é temporária e que numa época posterior do nosso desenvolvimento as três voltarão a ser uma só.

A verdadeira Religião inclui tanto a Arte como a Ciência, porque ensina a beleza da vida, de harmonia com as leis da natureza.

A verdadeira Ciência é artística e religiosa na mais alta expressão, porque nos ensina a reverenciar as leis que governam o nosso bem estar e a conformarmo-nos com elas, explicando ainda porque a vida religiosa conduz à saúde e à beleza.

A verdadeira Arte é tão educativa como a Ciência e tão edificante como a Religião.

Na arquitectura, temos uma sublime demonstração das linhas cósmicas, de força, do Universo. Enche o contemplativo espiritual de uma poderosa devoção e de uma adoração que nasce de um conceito inspirado na grandiosa majestade de Deus.

Para muitos, a vida sem a verdadeira Arte seria intolerável, porque a imaginação do homem requer tanto alimento como o corpo necessita de nutrição; e é imaginando que se constróem suas almas.

Existem três elementos necessários quando se considera a verdadeira Arte, quer esta seja a música, a pintura, a poesia ou a arquitectura. Esses três elementos indispensáveis são: emoção, expressão e ritmo. A arte pode ter por objecto representar a forma exterior ou pode tratar de mostrar o espírito interno de uma coisa, porém é sempre a posse de um impulso emocional crescente, o que deve ser satisfeito.

Para o artista dedicado é possível interpretar as realidades profundamente ocultas na natureza interna do homem. A revelação do espírito do homem é a sua mais alta missão. Cada época produz escultores, pintores e músicos que são capazes de produzir verdades criadoras ao contemplarem as obras de Deus, nosso Criador. Porém, estas criações estão sempre ligadas ao conceito próximo e individual do homem e à sua própria interpretação posto que elas conservam a sua maneira de interpretar a natureza. Este conceito individual do Universo de Deus proporciona a diversidade que existe no mundo criador da arte.

No entanto, há somente uns tantos em cada época que podem pretender possuir verdadeira originalidade. Muitas vezes, o artista copia e torna a copiar, sem ser capaz de revelar o conceito individual do seu próprio tema ou objecto.

Quando um artista se torna verdadeiramente criador é capaz de influir na vida inteira da nação.

O rumo que um povo segue demonstra-se, em primeiro lugar, no trabalho e expressão daqueles que têm fortes sentimentos internos e que são sensitivos aos impulsos ocultos do homem. Eles também devem reflectir as impressões que são capazes de receber, para que os demais também beneficiem com elas. O domínio de qualquer arte requer disciplina e isto significa que o aspirante tem que aprender a dominar a forma, seja esta de linguagem, cor, tom, ou modelação.

É unicamente mediante a meditação e a concentração intensa que se domina a destreza numa arte. Por conseguinte, é compreensível que, em algumas Escolas de Mistérios da Grécia, o mestre-artista fosse admitido no Templo sem que lhe exigissem os exercícios preliminares. A disciplina de dominar uma arte-forma era considerada suficiente para entrar directamente nos ensinos mais ocultos.

A história converte-se numa realidade para nós através da arte. Os arquitectos-construtores do Egipto, Assíria, Grécia e Roma, têm-nos dado uma demonstração clara da civilização destes países. Podemos ainda admirar os restos sublimes das suas figuras de barro e mármore, mesmo não sendo capazes de decifrar o que está nos muros e pirâmides das margens do Nilo. E sem os edifícios e estátuas da Grécia e de Roma as nossas ideias das vidas dos antigos seria, na verdade, confusa e irreal.

A Arte do homem dá testemunho do seu ser interno. Nada indicará o rumo dos tempos tão precocemente, como a música, a pintura, a arquitectura ou a poesia de um povo. É como se o artista-criador pudesse sentir as sombras que são arrojadas pelos acontecimentos futuros. Os anseios e os temores, as elevadas aspirações assim como os sentimentos de incerteza de um povo, podem perceber-se nas obras daqueles que dedicam as suas vidas à expressão das próprias reacções.

O próprio artista, salvo raras excepções, usualmente não tem cônscia de que as suas criações são uma parte necessária e valiosa do desenvolvimento de toda a humanidade. Vive e trabalha como lhe dita a sua fantasia, e está satisfeito enquanto pode seguir o impulso interno que o vai conduzindo a expressão.

Quando observamos o rumo ou tendência da arquitectura, a pintura e a música modernas das diferentes nações do nosso globo, impressionar-nos-á a similaridade desta tendência. Ver-nos-emos obrigados a admitir que, universalmente, o harmónico e o grotesco se revelam em si mesmos. De um modo geral podemos dizer que todas estas tendência têm muito em comum. A arte mais moderna demonstra que as fontes ocultas mais profundas estão perturbadas e que as imagens do Bom, do Verdadeiro e do Belo não são claramente concebidas e transmitidas.

Tem de se chegar à conclusão de que, no esforço do homem para criar alguma coisa nova ou sensacional, ele exibe a sua própria imagem interna, estranha e pessoal, em lugar de usar as verdades espirituais que estão à sua disposição nos seus esforços de criação.

Ao urdir a emaranhada teia das nossas vidas temos não somente as leis de causa e efeitos à nossa disposição, mas podemos sempre, dentro de certos limites, usar a epigénese para realizar alguma obra original, alguma expressão singular que possa distinguir-se na categoria do artístico. A possibilidade de originalidade é a espinha dorsal na evolução do homem.

Nos ensinos Rosacruzes aprendemos que existe uma força evolucionante dentro do homem que torna possível o seu desenvolvimento. Esta força subministra o campo para a nossa capacidade criadora, tal como o expressa também o poeta: “O problema maior de toda a arte é produzir, por meio das aparências, a ilusão duma realidade mais sublime” – Goethe.

A. Arroio




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