Filosofia

Alquimia e Rosacrucianismo:
Breves Considerações

Velando-se numa linguagem cifrada e em enigmáticos símbolos, a tradição hermético-alquímica, que tem caminhado subterraneamente ao longo dos tempos, visa fabricar a célebre Pedra Filosofal, substância que permite ao alquimista transmutar os metais impuros em ouro e obter a medicina universal, o elixir da juventude eterna. Com efeito, devendo possuir um coração puro, um entendimento penetrante e temência ao divino, o “filósofo hermético” passa esquecidas horas em seu laboratório, lugar discreto onde, no ensejo de produzir a dita Pedra, procura imitar à escala microcósmica o magno mistério da Criação.

(...)

Depois de sujeita a várias manipulações, a matéria é encerrada no Ovo Filosófico, pequeno balão de vidro ou cristal que se leva a aquecer no athanor, forno portador de um lume que se deve manter constante ainda que com diferentes gradações e cuja regulação se apresenta de suma relevância. É pois neste lume “amigo” que a matéria se transmuta e sublima, nele se submetendo a diversas operações, como a nigredo, altura em que, dissolvida, sofre a putrefacção ou mortificação; a albedo, momento em que ressuscita, reaparecendo candidíssima; a citrino, etapa onde prossegue o aumento da sua luminosidade; e, finalmente, a rubedo, tempo em que, triunfal, chega à sua regeneração plena, à Pedra rubificada, a qual possuirá depois, como vimos, dois excelsos destinos, a conversão dos metais vis em ouro e a preparação da panaceia universal, elixir que evita as enfermidades e retarda o envelhecimento. Com a obtenção da Pedra, o “filósofo hermético” alcança então a mais subida e perfeita consciência, a consciência desperta para Deus e para a eternidade, pelo que a obra alquímica constitui, em derradeira instância, a busca do sentido íntimo das coisas, a busca da mais elevada iluminação espiritual.

(...)

Com efeito, durante a centúria de Seiscentos, destacaram-se diversos membros ligados à fraternidade Rosacruz que deixaram alguns registos escritos acerca da tradição hermética, como Johann Valentin Andreae (1586-1654), influente pastor luterano a quem são atribuídas, além da Fama Fraternitatis (1614) e da Confessio Fraternitatis (1615), as célebres Núpcias Químicas (1616), romance alegórico onde se relata como o mítico fundador do Colégio Christian Rosenkreuz fora convidado a entrar num singular castelo a fim de assistir ao Casamento Alquímico do rei e da rainha, qual expressão do “dourado manto nupcial” que permite a percepção da intangível “soma de todas as faculdades humanas, atributos e conceitos do bem, exaltados até ao infinito”2. Além de Valentin Andreae, outro elemento rosacruciano que escreveu acerca da tradição hermética fora o eminente médico Michael Maier (1568-1622), profuso autor que, tendo comparado a Pedra Filosofal à Jerusalém Celestial, publicou em 1617 a Atalanta Fugiens, obra guarnecida de dezenas de gravuras de rica simbologia alquímica, e em 1618 a Themis Aurea, precioso texto que ensina como, na posse de elixires, os Irmãos da Rosacruz, desdenhando lucros e honrarias, realizam os seus labores em silêncio, submetendo-se à protecção divina3.

Curiosamente, diversos vultos rosacrucianos relacionados com a alquimia marcaram a pátria e a cultura lusitanas, como parece ter sido o caso do eminente médico Paracelso (1493-1541) que, no decorrer de suas longas viagens pela Europa, e a caminho de Santiago de Compostela, terá passado por Portugal, à volta de 15184. Devendo então ter conquistado alguns discípulos lusos, este notável espírito, que adicionou ao Enxofre e ao Mercúrio o terceiro princípio do Sal e formulou uma nova tradição química, embrião da ciência moderna, concebia a alquimia como uma doutrina de evolução ascendente, que equivalia à missão redentora do Nazareno, pois a “pedra filosofal é o Cristo da natureza e o Cristo a pedra filosofal do espírito”5. A par de Paracelso, outro rosacruciano crente na alquimia que contribuíu para a cultura portuguesa foi o erudito editor Theodore de Bry, autor de uma gravura de Macau onde se veio a basear uma gravura posterior que, datada de cerca de 1626, contém fortes alusões à obra hermética, já numa legenda latina mencionando algo semelhante a “Não foi desta matéria vil que se extraíu o Mercúrio”, já num motivo dum domador a compelir um burro a passar por um círculo, exibição circense que parece significar o mestre iniciado a realizar “a transformação simbólica da matéria, dando início às operações da Grande Obra”6.

(Resumo do texto publicado)

Susana Neves Silva

Notas

2 Max Heindel, Iniciação Antiga e Moderna, Lisboa, Fraternidade Rosacruz, 1999, p. 57. Sobre o “manto núpcial dourado”, veja-se também F. C., “A Metáfora do Deus Encarnado”, Rosacruz. Revista Trimestral de Esoterismo, Ano 81.º, n.º 383, Jan. Fev. e Março de 2007, pp. 22-23.
3 Veja-se sobre o assunto António de Macedo, “A Alquimia Espiritual dos Rosacruzes. Transmutação Mental, Transmutação Cordial e Themis Aurea”, in Discursos e Práticas Alquímicas, II, Lisboa, Hugin, 2002, pp. 143-144.
4 A. M. Amorim da Costa, Alquimia, Um Discurso Religioso, Lisboa, Vega, 1999, p. 67.
5 Alexandre Koyré, Paracelso, s.l., Fim de Século-Edições, 2001, p. 60.
6 Luís Sá Cunha, “O Topos Sagrado. Esboço de Mitografia Macaense”, Revista de Cultura, n.º 34 (II Série), l998, p. 9.




[ Índice ]