Mensagem de Reflexão para Agosto

  
O escravo é uma máquina sem alma.

Saulo e os Essénios

A Influência Essénia no Cristianismo

I PARTE

O autor dos Actos dos Apóstolos, é um homem culto que se identifica com o nome de Lucas. Não há provas de que seja o médico e amigo pessoal a que Paulo se refere (Col., 4, 14).

O que é certo, é que faz do apóstolo dos gentios a figura central da segunda parte da sua obra, ao mesmo tempo que relata a história organização e desenvolvimento da comunidade da “igreja primitiva” em Jerusalém. S. Tiago, “o irmão do Senhor” e Pedro, faziam parte dela.


Os Actos apresenta-nos Paulo (então chamado Saulo), quando nos relata a morte de Estevão, por apedrejamento. Informa-nos que Paulo não só consentiu na morte do apóstolo, como também “assolava a igreja, fazendo grandes estragos”. E conta-nos depois (capítulo 9) a sua conversão.

A caminho de Damasco sofre uma experiência traumática (relatada por Lucas; embora Paulo, por estranha que pareça não a confirme plenamente). Uma luz, vinda do céu, derruba-o do cavalo. E ouve dizer “Saulo, Saulo, porque me persegues?” Recuperado, descobre ter ficado cego. Recupera a visão em Damasco e faz-se baptizar.

Durante o seu ministério, Paulo volta-se decididamente para os gentios. É desconcertante verificar que, nas suas cartas, não há qualquer vislumbre de palavras, gestos ou atitudes de Jesus. Talvez, precisamente, por não os julgar adequados ao público gentio, quer dizer, aos não-judeus.

O conteúdo da sua obra missionária em Antioquia é posto em causa. Os chefes da comunidade de Jerusalém, que advogam o estrito cumprimento da Lei, acusam Paulo de laxismo, de desvio do ensinamento original, puro.

Ele mesmo o reconhece. E surge, com o tempo, um clima de atrito que levou Paulo a sustentar violentas querelas com os primeiros apóstolos e particularmente com Pedro.

Por que motivo teria surgido esse conflito, então, alimentado uma querela surpreendentemente violenta, com Pedro, discípulo de Jesus, (2 Gal., 11-21), chegando a repreendê-lo severamente, a chamar-lhe hipócrita (Gál. 2, 13) e acusá-lo de “não andar rectamente segundo a verdade” (Gál. 2, 14)?

Este incidente só pode ser entendido pela análise da influência essénia na “igreja primitiva”. De facto, o estudo crítico revela, surpreendentemente, a repetição de conceitos filosóficos e de figuras de linguagem essénios nos Actos dos Apóstolos, na Epístola de S. Tiago e nas abundantes cartas de Paulo, revelando que, entre os essénios e a primitiva comunidade cristã existe muito mais do que a simples repetição de jogos de palavras.

Para compreendermos esta fase histórica do cristianismo, anterior à fusão do “magistério” com o “império”, estudemos, em primeiro lugar, a importante função de Pedro, o primeiro apóstolo.


A Organização da Comunidade Essénia

Se nos debruçarmos sobre a análise de um dos manuscritos essénios, chamado “A Regra”, ficamos a saber como se faz a admissão de membros na comunidade. Todos tinham de passar por um exame à sua inteligência e às suas aptidões para a disciplina

Este exame é feito por um supervisor, inspector, inquiridor, ou ainda prognosticador, como lhe quisermos chamar, que tem um título: Kephas. Esta palavra aramaica equivalente ao qualificativo grego cephas, aplicado a Simão O significado da palavra é hoje um tanto complexo, embora perfeitamente definido para os essénios. Designava aquele que, entre outras coisas, era capaz de “ler os pensamentos e o rosto das pessoas”, ou seja, que era clarividente e dotado da capacidade de profecia. Aliás, este é único nome pelo qual Paulo parece conhecer o chefe da Comunidade de Jerusalém (a rara aparição das epístolas do nome Pedro é geralmente considerado uma intrusão tardia) .

Quando se fala dos essénios, é já um lugar comum realçar a influência que exerceram no cristianismo nascente. De facto, a possibilidade de comparação entre termos cristãos e essénios é quase infinita. Há mais do que uma simples comunhão de espírito entre o essenismo e o cristianismo. Daremos apenas mais dois exemplos. O paqid, inspector ou administrador da comunidade de Qumran, é equivalente a episkopos, que evoluiu, foneticamente, na igreja primitiva, para “bispo”. E a palavra “multidão”, que nos Actos dos Apóstolos designa o conjunto de fiéis, corresponde a rabbim, palavra hebraica que exprime a ideia de grandeza pelo número. - ou a de dignidade. É esta a origem do título “Rabino”, dado aos doutores da Lei judaica.


Essénios, Curadores e Profetas

É conhecida a reputação dos essénios como terapeutas, ou curadores, capazes de curar o corpo das doenças e o espírito das obsessões. Esta capacidade de visão especial, que permite desmascarar o espírito obsessor e baní-lo do corpo do doente, é constantemente relatado no Novo Testamento.

Não ordenou Jesus ao espírito obsessor que deixasse a sua vítima, perguntando-lhe “Que nome é o teu?” (Marcos, V). As actividades curativas também são comuns na vida de Pedro. Na história da cura dum aleijado (Act. 3, 4-5) e na do incidente com Ananias (Act. 5, 1-4) há alusões claras à sua capacidade de visão espiritual.


O Sinal do Profeta Jonas

No evangelho de Mateus, Simão é mencionado pelo seu patronímico “filho de Jonas”. Em aramaico, a frase seria bar-yonah (bar = filho de). Mas os estudiosos admitem há muito que o sobrenome não seria um patronímico, mas um título.

De facto, esta palavra, diz John Allegro , deve ser lida baryona, que significa “o vidente”. Por isso, a frase “bem-aventurado és tu Simão, filho de Jonas...” terá um sentido diferente: “bem-aventurado és tu, Simão, o vidente...” (Mt. 16, 17-18).

Não se compreende melhor, assim, o resto do versículo?

Ficamos também a saber, agora, a origem e o sentido autêntico do passo do Evangelho de S. Mateus, em que Jesus interroga os discípulos : “E vocês, quem acham que eu sou?” Unicamente Simão, olhando-o, reconheceu prontamente a sua tarefa messiânica!

Foi ele quem, tendo preparado já a sua “pedra filosofal”, como diz Max Heindel, por meio da alquimia espiritual, conquistou o direito de possuir “as chaves do reino espiritual”, quer dizer, tinha acesso aos mundos do espírito.


Petros e a Pedra

O jogo com a palavras gregas Petros e petra é óbvio e está relacionado com o percurso iniciático. Max Heindel analisa-o em pormenor e esclarece que, no caminho da evolução há três passos fundamentais. Ao primeiro corresponde a Petros, a rocha firme e dura, sinónimo de insensibilidade.

Com o segundo se relaciona litos, a pedra cúbica, polida pelo serviço. E com o terceiro vemos que a ligação se faz com a psephos leike, a “pedra branca” a que se refere o Apocalipse (2, 17).

É, pois, pelo facto de o apóstolo Simão ter a função de “rocha”, de seleccionador vidente e profeta, que se lhe dá o nome de Pedro, e não o contrário.


II PARTE

Depois de ter sido preso, Jesus foi levado para casa do sumo sacerdote. A narrativa deste passo bíblico descreve Pedro dum ponto de vista desfavorável. Note-se, todavia, que, quando Jesus foi preso, todos os discípulos fugiram, com excepção de Pedro.

Segundo João, estava acompanhado de outro discípulo que conhecia o sumo sacerdote. E assim conseguiu entrar no pátio da sua casa.

No relato de Lucas a história está escrita com todo o cuidado, culminando com um olhar significativo que Jesus lança sobre Pedro. O leitor sente aumentar gradualmente a intensidade emocional.

João tem uma opinião de Pedro muito mais suave. Ao contrário de Lucas, omite quer o cumprimento da profecia (Mat. 26,34) quer o seu amargo arrependimento do patriarca.


A Negação de Pedro

Pedro não ouviu o galo cantar porque a criação de aves de capoeira era proibida em Jerusalém. Este e outros eventos não foram escritos com a intenção de que a frase fosse tomadas à letra, como demonstra a escolha cuidadosa das palavras.

Na rápida sucessão de acontecimentos, que decorrem entre a prisão e a execução de Jesus, temos outro exemplo. É de tal modo apertada que, para além da flagrante incredibilidade - como fazer sair da cama Pilatos ou Antipas antes de o dia nascer - deve ser encarada unicamente como sumário dos acontecimentos.

Ressalta ainda o facto de Pedro ter proferido a negação, segundo o relato conhecido, perante serviçais, em condições que de modo algum o obrigavam a fazê-lo. Se Judas se suicidou, de acordo com os evangelhos, depois da traição, Pedro, ao contrário, mantém-se como dirigente da comunidade cristã de Jerusalém.

Por isso, Goguel põe em dúvida a autenticidade histórica deste passo, já que, a ser verdade, Pedro dificilmente reocuparia as suas funções de patriarca da comunidade. Conzelmann admite, por seu lado, que o relato da negação seja uma encenação típica de um tema cristológico.


As Epístolas de Paulo

Uma das mais desconcertantes características das Epístolas de S. Paulo é a falta de referências aos milagres de Jesus. É lícito perguntar se os terá conhecido. De facto, Paulo converteu-se depois da lapidação de Estêvão, por volta de 32-34, quatro anos depois da crucificação.

Não conheceu os evangelhos, que ainda não tinham ido escritos. Terá sido informado por Lucas? Talvez, mas ele foi um companheiro episódico e só o conheceu quinze anos depois da conversão.

Também não pode ter recebido conhecimento dos onze porque, como sabemos, foi um perseguidor do cristianismo até ao acontecimento de Damasco.

Recordemos o que nos disse na carta aos Gálatas “Fiquem a saber que o evangelho que vos anunciei não é de origem humana. Não o recebi nem aprendi de qualquer pessoa. Foi Jesus quem mo deu a conhecer”.

Esta afirmação implica que Paulo se considere não apenas um apóstolo, mas um profeta inspirado, não dependente do evangelho (boa nova) dos testemunhos directos de Jesus. E, por outro lado, que tivesse recebido instruções directamente de Jesus.

A última conclusão dá origem a algum cepticismo. Com efeito, do ponto de vista exclusivamente bíblico, o ensinamento de Paulo diverge, em alguns pontos, dos testemunhos directos de Jesus.

Do ponto de vista histórico, esta afirmação implicaria que Paulo tivesse dialogado longamente com Jesus depois da crucificação. Ora, isto não corresponde à visão momentânea que teve.

No episódio de Damasco existem sérias dificuldades históricas, lógicas e exegéticas.

Como já vimos, as ideias essénias, são comuns às partes mais “esotéricas” dos Actos, da Epístola de Tiago e de várias cartas de S. Paulo. Vemos aí um reflexo da sua formação esotérica e a possibilidade de uma forma sobrenatural de transmissão do conhecimento.

Que viu a Jesus, é ele próprio quem o afirma, mas em ocasião diferente do episódio de Damasco, onde só O ouviu.


A Evolução do Dogma de Jesus

Os primeiros cristãos eram judeus ortodoxos. Continuaram a observar a lei e a assistir aos serviços, na sinagoga e no templo. A eles se juntaram numerosos prosélitos, gregos e judeus de língua grega, que haviam regressado do estrangeiro para viver na capital.

Para compreendermos a transformação do dogma de Jesus, é preciso analisarmos o estrato social a que pertenciam os primeiros cristãos e seguir as suas transformações.

As primeiras comunidades eram formadas por entusiastas, oprimidos social e economicamente, unidos pela esperança e ódio. O seu estado de espírito vê-se claramente em Lucas.
O que nos diz revela mais do que simples manifestações de ansiedade e esperança. Encontramos o mesmo ânimo na história do homem pobre, Lázaro, em algumas palavras de Jesus e também na carta de Tiago, em meados do século II.

Paulo dirigiu-se às camadas sociais mais baixas, mas também, sem, dúvida aos comerciantes e pessoas abastadas e cultas.

Predominava então a doutrina da adopção, isto é, a crença de que o homem Jesus fora elevado a um deus.

A primeira grande modificação na composição dos crentes deu-se quando a propaganda cristã se voltou para os pagãos. Gradualmente, outro elemento social, mais educado e rico, aderiu às comunidades cristãs. Paulo, na verdade, era filho de um rico cidadão romano.

Tinha sido fariseu e, portanto um dos intelectuais que hostilizavam os cristãos e era por eles detestado.

Em meados do século II o cristianismo conquistou adeptos entre as classes média e alta do Império Romano, principalmente mulheres. Penetrou na aristocracia dominante.

No fim deste século o cristianismo deixou de ser a religião só de artesãos pobres e dos escravos. E Constantino tornou-a religião do Estado no século IV.

Com essa modificação social, económica e política dos maioria dos crentes, modificou-se o conceito de Jesus, Cristo e Deus: o homem não foi elevado a deus, mas deus desceu para se fazer homem. É esta a base no novo conceito, que culminou na doutrina de Atanásio, adoptada no Concílio de Niceia, que eliminou da fórmula o carácter revolucionário da doutrina antiga .

A transformação teológica reflectiu a modificação social. Em vez de se manter uma religião de rebeldes, que estimulava o crescimento espiritual individual, à semelhança de Jesus, a nova crença das classes dominantes procurava antes sossegar as massas e torná-las obedientes. O cristianismo tornou-se “revisionista”.


Conclusão

O que se sabe da vida e ensinamentos do cristianismo da Idade Apostólica está contido em grande parte, mas não exclusivamente, no Novo Testamento.

O N. T. apresenta-nos uma história contada de modo unilateral sobre as relações de S. Paulo com os outros apóstolos e as querelas desse tempo, ainda que em duas versões. Uma é a do próprio S. Paulo. A outra é a de S. Lucas.

Nos Actos, manifesta logo a clara intenção de apresentar S. Paulo como o arquitecto e pioneiro do novo cristianismo do último quartel do primeiro século.

Nos ensinamentos nazarenos que sobreviveram nos ensinamentos da patrística, há bastantes passos que revelam não só a harmonia entre a lei e o culto, mas também a existência de mistérios ou ensinamentos secretos, “que não podiam ser revelados senão aos iniciados”, e distinguia os que estão “dentro” e os que ficam de “fora”.

Nos ensinamentos paulinos e nos evangelhos encontramos também a mesma preocupação. Mas a sua estratégia, privilegiando os gentios, privou o povo judeu de um ensinamento que lhe era particularmente destinado.

As iniquidades de Néro e Calígula pressagiavam o fim do Império Romano. E com o passar do tempo, o ideal messiânico transformou-se numa religião institucionalizada, que acabaria por se comprometer com os adversários históricos de Jesus: o Estado, os poderosos e os fariseus.

F. C.

Bibliografia

Casiano, Floristán - Conceptos Fundamentales del Cristianismo, vol I e II, Madrid, 1993; Cesareia, Eusebio de - História Eclesiástica, vol II e III, Barcelona, 1993; Josefo, Flavio - Antiguidades de los Judíos, Vol I, II e III, Barcelona, 1994; Manzanares, César Vidal - El Judeo-Cristianismo Palestino em el Siglo I, Madrid, 1995; Martinez, Florentino García - Los Hombres de Qumrán. Literatura, Estrutura Social e Concepciones Religiosas, Madrid, 1997; Schonfield, Hugh J., Nuevo Testamento Original; Barcelona, 1989; El Partido de Jesus, Barcelona, 1988; Weddig, Frick, El Juicio Contra Jesus, Barcelona, 1993; Vidal, Senén - Las Cartas Originales de Pablo, Madrid, 1996.
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