Mensagem de Reflexão para Dezembro

  
A vida é a infância da nossa imortalidade.

A Sociedade do Espectáculo

A Violência no Desporto


São ainda controversas as suposições sobre o carácter pacífico ou belicoso do ser humano natural. As teorias assentes numa hipotética predisposição pacífica e na paz como fenómeno espontâneo enfrentam um conjunto de factos que parecem desmenti-las. Chegam-nos estes de várias fontes, que incluem a análise histórica, a etnologia e outras. Com efeito, a observação de grupos sociais em estado primitivo parece conduzir-nos a um complexo de conclusões que se afastam da mera opção entre a natureza pacífica ou belicosa do homem, bem como entre a naturalidade social da guerra ou da paz.

Parece dever pensar-se antes que o homem ancestral, vivendo em pequenos grupos familiares, teria um comportamento agressivo em defesa da territorialidade e receberia alento da estrutura social dominada pelo comportamento sexual. Seria, pois, à agressividade humana que os conflitos tribais iriam buscar a sua energia cinética.  

Os mecanismos da competição e agressividade, comuns a uma lista interminável de seres vivos, surgem como das mais importantes “técnicas” de sobrevivência e apuramento das espécies. Geralmente, as manifestações agressivas destinam-se a resolver problemas orgânicos e sociais de base — território, sexo, alimentos, hierarquias e predomínio social — e estão ligados aos mecanismos da evolução da espécie.
A violência surge como a forma infecciosa da agressividade. Sendo um processo aparentemente agressivo, dirige-se a objectivos de diversão e de destruição gratuita.

Nas tribos, a agressividade interna era também controlada por um conjunto de processos cumulativos, como o infanticídio, a castração, o monaquismo, a flagelação e sacrifícios que chegavam até à mutilação e à morte (1). Mas o desenvolvimento técnico e cultural levou a uma “abertura” destes grupos fechados a uma sociabilidade mais ampla, o que levou a uma profunda alteração das formas de agressividade. Com efeito, as sucessivas assimilações, conquistas e dominações permitiram modificar as formas de exteriorização da agressividade, que perdeu justificações concretas de natureza totémica e familiar, incluindo costumes e religiões, para se tornar cada vez mais abstracta.

    Hoje, a par de um nível técnico crescente, o homem civilizado, que se exprime numa sintaxe perfeita e impecavelmente submetida à racionalidade, pode ser ainda uma expressão fraudulenta do progresso, ou seja, puro resultado de uma evolução mais ou menos deficiente.

Quer isto dizer que o homem civilizado pode muito bem ser um “homem primitivo” submetido, pela cultura racional, a determinadas regras e a uma mentalidade social que se exprime numa linguagem alheia ao seu ser natural. Não foi, porém, capaz de acompanhar a dinâmica social que permitiu o domínio da agressividade e a sua transmutação em “agressividades amigáveis”, ou seja, aquelas formas benignas  de agressividade que vemos nos jogos e outras ocupações lúdicas das crianças em que, segundo os momentos, se qualificam os companheiros de jogo em bons ou maus, mas sem demasiadas consequências para as suas relações e sem levar demasiado a sério os conflitos, moderando assim os seus efeitos.

Neste cenário, que se pode associar aos primórdios dos jogos e do desporto, será conveniente começar por lançar um olhar sobre os povos primitivos e as mais antigas civilizações, contextos esses onde se identificam actividades procedentes de um impulso lúdico e desportivo. Abordaremos em seguida a confusão de valores sociais e desportivos que se estabeleceu entre o moderno desporto recreativo-educativo, que é o da promoção social, e o desporto comercializado, ou espectáculo de características desportivas, que é uma simples forma de espectáculo (como teatro ou o cinema), geralmente caracterizado por um clima de paixão doentia e abertamente agressiva entre  atletas, dirigentes e público.
Não cessamos de obter novos conhecimentos sobre as antigas civilizações. Naquelas que — com a sua cultura e seu sistema de direitos, deveres e garantias — mais influenciaram o nosso modo de vida, identificam-se claramente actividades inspiradas no desejo de adquirir maior habilidade e mais resistência física para enfrentar acontecimentos da vida corrente.

“Na civilização grega, o desporto surge fortemente enraizado na consciência pelas suas vantagens na formação do Homem. A profunda rivalidade existente entre as cidades, o choque das classes e das facções dentro de cada uma delas e os daí decorrentes antagonismos nos torneios de atletismo e outras práticas desportivas despertam a convicção da necessidade de uma prontidão constante para luta, o que requer conveniente preparação física e de treino adequado. É esta competitividade a primeira condição do desporto. Mas, os Gregos tiveram o mérito de evitar excessos, pelo recurso a palestras e a práticas de ginásio, impondo regras e limites e estabelecendo sanções severas para os excessos dos praticantes e cidades concorrentes. Naquele tempo, o vencedor recebia uma simples “coroa” de ramos de oliveira (Jogos Olímpicos, em Olímpia), de loureiro (Jogos Píticos, em Delfos), de pinheiro (Jogos Ístmicos, em Corinto) ou de aipo (Jogos Nemeus, em Nemeia). Essas coroas eram geralmente depositadas no templo do deus. Os jogos eram autênticas cerimónias litúrgicas de homenagem às divindades. Se houvesse guerra, ela era suspensa durante oito dias; esperava-se pela Lua Nova que precede o solstício de Verão e, logo que ela aparecia, iniciavam-se os jogos com sacrifícios aos deuses. Estas nobres tradições acabaram por se degradar com o advento do mercantilismo e a decadência do espírito desportivo.

É o que vemos já entre os Romanos. Estes conquistaram a Grécia, mas não compreenderem o espírito daqueles jogos e apenas valorizaram a sua importância na preparação física dos militares das suas legiões. Os gladiadores que se apresentavam nos espectáculos do circo apenas exibiam a crueldade e a selvajaria que os espectadores gostavam de presenciar. Não é, pois, em Roma, mas na Grécia que devemos procurar o ideal da prática desportiva” (2).

Uma das consequências da Primeira Revolução Industrial (séculos XV – XVII) foi o advento de uma autêntica “revolução desportiva”, com o reconhecimento das virtudes pedagógicas do desporto e da sua importância como via de criação cultural (3). Pierre de Coubertin, que refundou os Jogos Olímpicos no final do século XIX, considerou a actividade desportiva indispensável para uma transformação completa da pedagogia mundial.

Tão importante como a actividade física associada à prática do desporto é a sua capacidade catártica, capaz de ajudar o praticante a transmutar a agressividade atávica do homem arcaico que ainda habita em si (4).

De facto, o desporto sem essa função, como simples actividade física, é pobre e pouco salutar tendo em conta a dimensão espiritual do Homem. Se encararmos a vida como uma realidade transversal à matéria e ao espírito, a prática desportiva deve contribuir para o desenvolvimento físico equilibrado do corpo e do espírito, promovendo o autodomínio, o cavalheirismo, etc. (5). A civilização chinesa parece ter sido a primeira a fazer uso racional dos exercícios físicos.  O seu principal meio era um método de educação física muito pormenorizado, o Kung fu, criado cerca de 2700 a. C., que tinha uma finalidade religiosa, pois destinava-se a curar o corpo das enfermidades que o impediam de ser um bom servidor do espírito. Os mais recentes estudos feitos sobre povos ainda no estado primitivo levaram à descoberta destas mesmas tendências no Egipto, na África subsariana, no México e noutros locais.

Embora o cristianismo se tivesse imposto na Idade Média e a sociedade aceitasse a sua forte autoridade, que condenava o orgulho e defendia a necessidade de cultura do espírito, a verdade é que na época feudal a fé se associou facilmente com o gosto pela violência e pelo saque, práticas habituais tanto nas guerras como nos jogos. Os éditos e decretos promulgados na tentativa de interditar esses jogos eram completamente ineficazes. O espírito de rivalidade e o gosto “pela bravura” manteve-se muito vivo. É certo que esta maneira de ser contribuiu para consolidar eficazmente as solidariedades regionais, mas também é verdade que despertou igualmente rivalidades que ainda hoje persistem; e, ao depararmo-nos a cada passo com elas, é-nos muito difícil fazer renascer o puro espírito de grupo que animava outrora os jogos.

E porquê?
Porque, na civilização industrial e na consequente massificação das populações (cada vez mais confusas, cada vez mais dispersas nas ideias, nos ideais, nas referências de valor para além do imediato e dos bens materiais, dos  interesses e dos prazeres), o que acima de tudo prende as sociedades, os governos e os políticos é a discussão sobre os temas económicos, vistos como a solução de tudo o que é prioritário ou importante para a vida. Não se vislumbra qualquer motivação de valores, de objectivos e de anseios superiores mais ou menos consciencializados, apontando para a realização de formas espirituais com uma estrutura de valores hierarquizáveis e bem definidas.

É verdade que tudo tem o seu lugar e tempo próprios e a sua dimensão, mas os aspectos materiais de vida, com os seus interesses e prazeres, estão longe de preencher a dimensão que assiste ao ser humano como tal.

A vida, contemporânea do universo e da matéria, tem uma dimensão cósmica. O Homem está integrado no cosmo, mas ainda não pode descrever essa comunhão com as palavras habituais. Não tem, ainda, uma linguagem científica que o permita — e as linguagens simbólicas das religiões são essencialmente subjectivas, entendendo-se, por isso, não científicas. Mas o que já se conhece do fenómeno humano permite--nos saber de que modo evoluiu o homem até agora e como está longe de alcançar a sua meta (6).

Se tomarmos como objecto de observação o próprio ser humano, pode verificar-se que há nele uma base físico-química, material, em que, de facto, pode ter cabimento uma visão materialista. Mas o homem é também vida. Devemos por isso atender igualmente ao seu aspecto vital e conseguir a aplicação dos métodos adequados ao seu desenvolvimento. E, como também não se esgota no nível vital, se queremos evitar que o processo de complexificação social e as tensões que lhe são inerentes sirvam de estímulos sempre renováveis ao exercício da violência, temos de prestar atenção ao nível superior, que é o das funções tipicamente criadoras, que pertencem ao domínio do espiritual e da realização do espírito no mundo. Só elas nos permitem conhecer as causas e ultrapassar a predisposição para a violência (7).

Ora, a violência é uma realidade social insofismável que, quanto a nós, se encontra profundamente ligada à transfiguração da realidade em símbolos mistificadores que viciam o mecanismo inibidor da agressividade e anulam as reacções de simpatia e empatia através de uma correspondente justificação ou estímulo da violência.

Esta justificação pode naturalmente surgir dos empresários da “indústria do espectáculo desportivo”. Ao apontarem como inimigos imaginários a vencer todos os que se revelem obstáculo à conquista da taça ou do campeonato, conseguem duas coisas. Por um lado, aliena e mobiliza os espectadores — que, mais emotiva do que racionalmente, se transformam em multidões barulhentas e ululantes na defesa do seu grupo desportivo (8).  E, ao mesmo tempo, com a preocupação única de querer fazer melhor do que o adversário, seja por que preço for, mesmo desprezando aquilo que confere verdadeiro valor humano a um indivíduo, transforma--se o atleta em homo mechanicus, um homem-máquina. Assim desumanizado, robotizado, convertido em “escravo (i)legalizado”, valoriza unicamente o espectáculo e o seu aspecto imediato, físico, sensorial. (9)

Já Pierre de Coubertin se tinha apercebido da maneira anómala como a prática do desporto poderia evoluir, sem corresponder à sua finalidade, em organismos desportivos pouco interessados em consentir que o interesse da formação geral do jovem desportista se sobreponha às conveniências especiais do “ofício desportivo” da modalidade lucrativa.

Os organismos atrás referidos, ao entusiasmar os jovens, em particular os pertencentes aos estratos menos favorecidos da sociedade, falseando-lhes o discernimento mediante louvores nos media e outros benefícios (sobretudo de carácter económico), contribuem para que o desporto se transforme, cada vez mais, num fenómeno para a referida “sociedade do espectáculo” com uma evidente promiscuidade friamente assumida entre o poder político e os vários poderes económicos (10).

De uma forma abreviada, elaborámos o esboço anatómico da violência na prática dos espectáculos desportivos que, em teoria e na sua origem, se destina ao revigoramento da espécie humana, desde o estímulo da inteligência à defesa da saúde. Em vez disso, porém, ela acaba agora, o mais das vezes, por ser um “processo” que estimula aquele resíduo do homem primitivo que ainda há em nós com elevada propensão para a violência.

É conveniente que, frente à magnitude do problema, não se pense apenas em termos de causas sociais (organização social ou orientação política), mas sobretudo na natureza humana e na composição da actual humanidade.

Sendo assim, a educação avulta como uma causa importante, porque envolve factores psíquicos de equilíbrio, agressividade e comportamento instintivo básico. Por outro lado, o nível cultural é de extrema importância pelos imediatos reflexos que tem na organização social e no esclarecimento da opinião pública.

Continua a ser extremamente reduzido, em termos percentuais, o número de seres humanos dotados de autêntico poder criador e elevado sentido crítico e, pior que tudo, é cada vez mais visível a sua dependência dos poderes políticos, económicos e sociais, que procuram subjugá-los aos seus interesses específicos e de âmbito limitado. É, de facto, desproporcionado o número daquela minoria humana consciente e informada, contrastando com a crescente maioria dos amorfos, bestializados pela civilização técnica ou mantidos em estado de permanente subinformação.

Para corrigir o sentido trágico da evolução humana e social pede--se à filosofia rosacruz uma importante função: a de acrescentar ao conhecimento “fotográfico” ou “cinematográfico” da realidade, que é dado pelas diversas ciências, uma ponderação normativa que permita ver o mundo em função de valores realizados, realizáveis ou a realizar, sob pena de consentir-se a edificação de um mundo social monstruoso, habitado por seres humanos física e psiquicamente diminuídos, em que a cultura e o contribuinte tendem a subsidiar formas de comportamento que podem servir fins contrários aos da essência criadora do espírito.

F. M. C.

 

1. Max Heindel, Conceito Rosacruz do Cosmo, 4ª ed.; Lxª, 2005, p. 224, etc.
2. Bernard Gillet, História Breve do Desporto; Editorial Verbo, Lxª, 1961, pp 25-26.
3. Manuel Sérgio, Algumas Teses Sobre o Desporto; Compendium; 2019, p. 16.
4. F.M.C., Dar Sentido ao Futuro; Revista Rosacruz nº 434, pp 1-7.
5. Qual a Origem da Vida? in Revista Rosacruz, nº 432, p. 16.
6. Max Heindel, Ob. cit., II Parte — Cosmogénese e Antropogénese; pp 141--286; 4ª ed., Lxª 2005.
7. F. C. Anatomia da Violência, Revista Rosacruz nº 384, pp 1-4.
8. Umberto Eco, Construir O Inimigo e outros Escritos Ocasionais; Gradiva, 2011.
9. Jerry Silva, Estamos a Transformar o Jogador num Autómato, num Robô — O Futebol e a Monitorização do Sono; Ed. MEDIAprumo, pp 46-47; in “Público”, 26 de Fevereiro de 2020.
10. Romain Molina, La Mano Negra, Ces Forces Obscures qui Contrôlent le Football Mondial; Hugo
Doc, Paris 2018; Mathieu Grégoire, Les Parrains du Foot; Robert Laffont, Paris 2018.

loader

Presenças

Temos 165 visitantes e 0 membros em linha

713643
Today
Yesterday
This Week
Last Week
This Month
Last Month
All days
253
699
4995
462159
4065
24434
713643

Your IP: 18.213.192.104
2020-12-05 03:17